segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Jeová abençoa ricamente os que guardam seu caminho NARRADA POR ROMUALD STAWSKI

Jeová abençoa ricamente os que guardam seu caminho
NARRADA POR ROMUALD STAWSKI
Quando começou a Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, o norte da Polônia foi palco de violentas batalhas. Como menino curioso de 9 anos de idade, fui dar uma olhada num campo de batalha próximo. O que vi foi terrível — cadáveres espalhados pelo chão e uma fumaça sufocante. Embora o que mais me preocupasse fosse chegar em casa em segurança, algumas perguntas me vieram à mente: “Por que Deus permite que essas coisas terríveis aconteçam? De que lado ele está?”
PERTO do fim da guerra, os jovens eram obrigados a trabalhar para o regime alemão. Quem ousasse se recusar era enforcado numa árvore ou numa ponte com a placa “traidor” ou “sabotador” pendurada no peito. A nossa cidade, Gdynia, se localizava entre exércitos inimigos. Quando saíamos da cidade para apanhar água, balas e bombas zuniam sobre a nossa cabeça. Numa dessas vezes, um dos meus irmãos mais novos, Henryk, foi atingido e morreu. Por causa dessas condições terríveis, minha mãe e nós, seus quatro filhos, mudamos para um porão por razões de segurança. Ali, meu irmão de dois anos, Eugeniusz, morreu de difteria.
De novo eu me perguntava: “Onde está Deus? Por que ele permite todo esse sofrimento?” Embora eu fosse católico praticante, não encontrei as respostas.
Aceitei as verdades da Bíblia
As respostas às minhas perguntas vieram duma fonte inesperada. A guerra acabou em 1945 e, no início de 1947, uma Testemunha deJeová visitou nossa casa em Gdynia. Minha mãe falou com a Testemunha e eu ouvi parte do que foi dito. Parecia lógico, de modo que aceitamos o convite para assistir a uma reunião cristã. Apenas um mês depois, embora eu ainda não estivesse bem firmado na verdade bíblica, juntei-me a um grupo de Testemunhas de Jeová locais e pregava a outros a respeito de um mundo melhor, sem guerras e atrocidades. Isso me dava muita alegria.
Em setembro de 1947, fui batizado numa assembléia de circuito em Sopot. Em maio do ano seguinte, comecei a servir como pioneiro regular, dedicando a maior parte do meu tempo à pregação da mensagem bíblica. O clero local opôs-se ferozmente à nossa obra e incitava a violência contra nós. Certa vez, uma turba irada nos atacou com pedras e nos surrou violentamente. Em outra ocasião, freiras e clérigos locais instigaram um grupo de pessoas a nos atacar. Nós nos refugiamos numa delegacia, mas a turba cercou o prédio, ameaçando nos espancar. Por fim chegou reforço policial e fomos retirados dali sob forte escolta.
Naquele tempo, não havia nenhuma congregação na nossa região. Às vezes dormíamos na floresta, ao ar livre. Era um prazer realizar a pregação, apesar das dificuldades. Hoje há congregações fortes naquela região.
Serviço de Betel e prisão
Em 1949, fui convidado para servir no Lar de Betel em Lodz. Que privilégio! Infelizmente, fiquei pouco tempo ali. Em junho de 1950, um mês antes da proscrição oficial da nossa obra, fui detido junto com outros irmãos de Betel. Fui levado à prisão, onde enfrentei um interrogatório cruel.
Visto que meu pai trabalhava num navio que viajava regularmente para Nova York, os agentes responsáveis pelas investigações tentaram me obrigar a dizer que ele espionava para os Estados Unidos. Fui submetido a um interrogatório impiedoso. Além disso, quatro agentes tentaram simultaneamente me obrigar a depor contra o irmão Wilhelm Scheider, que na época supervisionava nossas atividades na Polônia. Eles me espancaram no calcanhar com bastões. Num determinado momento, deitado no chão, sangrando, achando que não podia mais agüentar, eu gritei: “Jeová, ajuda-me!” Meus perseguidores ficaram surpresos e pararam de me bater. Depois de alguns minutos, adormeceram. Senti-me aliviado e recuperei as forças. Isso me convenceu de que Jeová ouve amorosamente seus servos dedicados que clamam a ele. Também fortaleceu minha fé e ensinou-me a confiar plenamente em Deus.
O relatório final das investigações incluía testemunho falso supostamente dado por mim. Quando protestei, um agente disse: “Você vai explicar isso no tribunal!” Um colega de cela amistoso aconselhou-me a não me preocupar com aquela ameaça, pois o relatório final teria de ser verificado por um promotor militar; isso me daria a oportunidade de refutar o falso testemunho. E assim aconteceu.
Serviço de circuito e mais uma prisão
Fui libertado em janeiro de 1951. Um mês depois, comecei a servir como superintendente viajante. Apesar da proscrição, eu trabalhava junto com outros para fortalecer as congregações e ajudar os irmãos na fé que haviam sido espalhados por causa das atividades dos serviços de segurança. Nós incentivávamos os irmãos a continuarem o ministério. Em anos posteriores, esses irmãos apoiavam corajosamente os superintendentes viajantes e executavam a tarefa de imprimir e distribuir publicações bíblicas às ocultas.
Certo dia em abril de 1951, depois de assistir a uma reunião cristã, fui detido na rua por agentes de segurança que vinham me vigiando de perto. Visto que me recusei a responder às suas perguntas, eles me levaram a uma prisão em Bydgoszcz e começaram a me interrogar naquela mesma noite. Fui obrigado a ficar em pé encostado numa parede por seis dias e seis noites, sem comida nem bebida, e num ambiente cheio de fumaça de cigarro dos policiais. Era espancado com um pau e queimado com ponta de cigarro. Quando eu desfalecia, jogavam água em cima de mim e reiniciavam o interrogatório. Eu implorei a Jeová por ajuda, e ele me deu forças para suportar a provação.
Ficar na prisão em Bydgoszcz tinha seu lado bom. Eu podia falar sobre verdades bíblicas com pessoas que de outra forma teria sido impossível. E houve, realmente, muitas oportunidades de dar testemunho. Por causa de sua situação triste, muitas vezes sem esperança, os prisioneiros abriam o ouvido e o coração às boas novas.
Duas mudanças importantes
Pouco depois de ter sido libertado, em 1952, conheci a jovem Nela, uma zelosa pioneira. Ela havia servido no sul da Polônia. Mais tarde serviu numa “padaria”, nome que dávamos aos locais secretos em que se imprimiam as nossas publicações. Era um trabalho árduo, que exigia vigilância e abnegação. Casamo-nos em 1954 e continuamos no serviço de tempo integral até o nascimento de nossa filha, Lidia. Daí decidimos que, para que eu pudesse continuar no serviço de viajante, Nela deixaria o serviço de tempo integral, voltaria para casa e cuidaria da nossa filha.
Naquele mesmo ano, tivemos de tomar outra decisão importante. Fui convidado para servir como superintendente de distrito numa área que cobria um terço da Polônia. Oramos a respeito do assunto. Eu sabia como era importante fortalecer nossos irmãos sob proscrição. Muitos eram presos, de modo que havia grande necessidade de encorajamento espiritual. Com o apoio de Nela, aceitei a designação. Jeová me ajudou a servir nessa função por 38 anos.
Encarregado de “padarias”
Naqueles dias, o superintendente de distrito era responsável pelas “padarias”, que funcionavam em locais escondidos. A polícia estava sempre no nosso encalço, tentando localizar e fechar esses locais de impressão. Às vezes eles conseguiam, mas nunca ficamos sem o necessário alimento espiritual. Era bem evidente que Jeová cuidava de nós.
Para realizar o árduo e perigoso trabalho de imprimir, a pessoa convidada tinha de ser leal, alerta, abnegada e obediente. Essas qualidades possibilitavam o funcionamento seguro de uma “padaria”. Difícil também era conseguir um bom local para essa impressão às ocultas. Alguns locais pareciam adequados, mas os irmãos ali não eram muito precavidos. Em outros locais, a situação era inversa. Os irmãos se dispunham a fazer sacrifícios excepcionais. Eu estimava muito esses irmãos e irmãs com os quais tive o privilégio de trabalhar.
Defesa das boas novas
Naqueles anos difíceis, muitas vezes éramos levados a tribunais, sob acusação de atividades ilegais e subversivas. Era um problema, pois não tínhamos advogados para nos defender. Alguns deles eram solidários, mas a maioria temia a publicidade e não queria arriscar desagradar às autoridades. Mas Jeová sabia de nossas necessidades e, no tempo devido, manobrou os assuntos concordemente.
Alojzy Prostak, um superintendente viajante da Cracóvia, foi tratado com tanta brutalidade num interrogatório que teve de ser levado ao hospital da prisão. A sua posição firme em face de tortura mental e física granjeou-lhe o respeito e a admiração de outros prisioneiros no hospital. Um deles era um advogado chamado Witold Lis-Olszewski, que ficou impressionado com a coragem do irmão Prostak. Os dois conversaram várias vezes, e o advogado prometeu: “Assim que eu for libertado e receber permissão de retomar meu trabalho, vou defender as Testemunhas de Jeová.” Ele cumpriu a palavra.
O Sr. Olszewski tinha a sua própria equipe de advogados, cuja determinação de nos ajudar era realmente admirável. Durante o período de oposição mais intensa, eles defenderam os irmãos em cerca de 30 julgamentos por mês — em média um por dia! Visto que o Sr. Olszewski precisava estar bem informado sobre todos os processos, fui designado para manter-me em contato com ele. Trabalhei com ele por sete anos, nas décadas de 60 e 70.
Aprendi muito sobre procedimentos jurídicos naqueles dias. Muitas vezes acompanhei os julgamentos, os comentários dos advogados — tanto a favor como contra —, os métodos de defesa jurídica e o testemunho de nossos irmãos acusados. Tudo isso foi muito útil na ajuda que eu prestava aos irmãos, em especial aos que eram convocados como testemunhas, para que soubessem o que dizer e quando deviam permanecer calados no tribunal.
Quando um julgamento estava em curso, o Sr. Olszewski muitas vezes pernoitava na casa de Testemunhas de Jeová. Não era o caso de ele não poder pagar um quarto de hotel, mas, como ele disse certa vez: “Antes do julgamento, eu quero respirar um pouco desse espírito que vocês têm.” Graças à sua ajuda, muitos julgamentos foram favoráveis. Ele me defendeu várias vezes, mas nunca aceitou pagamento. Numa determinada ocasião, ele recusou pagamento de 30 processos. Por quê? Ele disse: “Quero contribuir nem que seja um pouquinho para o trabalho de vocês.” E o dinheiro envolvido não era pouco. As atividades da equipe do Sr. Olszewski não passaram despercebidas pelas autoridades, mas isso não o desencorajou de nos ajudar.
É difícil descrever o excelente testemunho dado pelos irmãos nesses julgamentos. Muitos compareciam ao tribunal para acompanhar os julgamentos e fortalecer os irmãos acusados. Durante o período de auge no número de julgamentos, eu contei nada menos que 30 mil desses apoiadores num ano. Certamente, uma grande multidão de Testemunhas!
Nova designação
Em 1989, a proscrição da nossa obra já havia sido revogada. Três anos depois, uma nova sede foi construída e dedicada. Fui convidado para servir ali no setor de Serviços de Informações sobre Hospitais, designação que aceitei com prazer. Trabalhando numa equipe de três pessoas, nós damos suporte aos irmãos na questão do sangue e os ajudamos a defender sua posição baseada na consciência cristã. — Atos 15:29.
Como casal, somos muito gratos pelo privilégio de servir a Jeová no ministério público. Minha esposa sempre me apoiou e incentivou. Serei eternamente grato de que, sempre que eu estava ocupado com designações teocráticas ou era preso, ela jamais se queixou de minha ausência em casa. Em tempos difíceis, ela consolava outros, em vez de se abater.
Por exemplo, em 1974, fui preso junto com outros superintendentes viajantes. Alguns irmãos, cientes do ocorrido, queriam contar isso à minha esposa de um modo jeitoso. Quando a viram, perguntaram: “Irmã Nela, você está preparada para o pior?” De início, ela ficou paralisada de medo, pois pensou que eu havia morrido. Ao saber dos fatos, ela disse, aliviada: “Ele está vivo! Essa não é a primeira vez que ele vai preso.” Os irmãos me disseram mais tarde que ficaram muito impressionados com a atitude positiva dela.
Embora tenhamos sofrido algumas situações dolorosas no passado, Jeová sempre nos recompensou ricamente por termos ‘guardado seu caminho’. Quanto nos alegra que nossa filha, Lidia, e seu marido, Alfred DeRusha, têm sido um casal cristão exemplar! Eles criaram seus filhos, Christopher e Jonathan, que se tornaram servos dedicados de Deus, o que aumenta a nossa felicidade. Meu irmão Ryszard, e minha irmã, Urszula, também são cristãos fiéis há muitos anos.
Jeová jamais nos abandonou, e desejamos continuar a servi-lo de todo o coração. Temos visto pessoalmente como são verdadeiras as palavras do Salmo 37:34: “Espera em Jeová e guarda seu caminho, e ele te exaltará para tomares posse da terra.” Aguardamos com ansiedade esse dia.

Sirvo alegremente apesar da deficiência física NARRADA POR VARNAVAS SPETSIOTIS

Sirvo alegremente apesar da deficiência física
NARRADA POR VARNAVAS SPETSIOTIS
Em 1990, aos 68 anos, fiquei totalmente paralisado. No entanto, já por cerca de 15 anos sirvo alegremente como ministro de tempo integral na ilha de Chipre. O que me dá forças para continuar ativo no serviço de Jeová, apesar de minha deficiência física?
NASCI numa família de nove filhos — quatro meninos e cinco meninas — em 11 de outubro de 1922. Morávamos no povoado de Xylophagou, em Chipre. Embora meus pais tivessem uma situação financeira relativamente boa, criar uma família grande como essa envolvia trabalhar muito na lavoura.
Meu pai, Antonis, era curioso por natureza e gostava de estudar. Pouco depois de eu nascer, ao visitar o professor do povoado, meu pai viu um tratado intitulado Peoples Pulpit (Púlpito do Povo), publicado pelos Estudantes da Bíblia (como eram conhecidas as Testemunhas de Jeová). Ele começou a ler o tratado, e o conteúdo logo prendeu sua atenção. Em resultado disso, meu pai e um de seus amigos, Andreas Christou, estavam entre as primeiras pessoas na ilha a se associar com as Testemunhas de Jeová.
Aumento apesar da oposição
Com o tempo, os dois conseguiram mais publicações das Testemunhas de Jeová, baseadas na Bíblia. Logo, meu pai e Andreas sentiram-se motivados a falar a seus vizinhos sobre as verdades bíblicas que aprendiam. Essa atividade de pregação causou muita oposição do clero ortodoxo grego e de outras pessoas que achavam que as Testemunhas de Jeová eram uma influência prejudicial.
Apesar disso, muitas pessoas da localidade respeitavam esses dois instrutores da Bíblia. Meu pai era bem conhecido por sua bondade e sua generosidade. Ele com freqüência ajudava as famílias pobres. Às vezes, saía de fininho no meio da noite e deixava trigo ou pão à porta de famílias carentes. Essa generosidade cristã tornava ainda mais atraente a mensagem que meu pai e Andreas pregavam. — Mateus 5:16.
O resultado foi que cerca de dez pessoas aceitaram a mensagem bíblica. À medida que aumentava seu apreço pela verdade, elas sentiram a necessidade de se reunir em vários lares para estudar a Bíblia em grupo. Por volta de 1934, Nikos Matheakis, ministro de tempo integral da Grécia, chegou a Chipre e encontrou-se com o grupo de Xylophagou. Com paciência e determinação, o irmão Matheakis ajudou o grupo a se organizar e a adquirir um entendimento melhor das Escrituras. Esse grupo, mais tarde, tornou-se a primeira congregação das Testemunhas de Jeová em Chipre.
À medida que a obra cristã progredia e mais pessoas aceitavam a verdade bíblica, os irmãos viram a necessidade de ter um local permanente para realizar as reuniões. Meu irmão mais velho, George, e minha cunhada, Eleni, ofereceram o celeiro que ficava ao lado da casa deles. Esse celeiro foi reformado e transformado em um local adequado para as reuniões. Assim, os irmãos passaram a ter um Salão do Reino próprio, o primeiro na ilha, e sentiram-se muito gratos. Isso deu um ímpeto e tanto para mais aumento!
Convenci-me da verdade
Em 1938, quando eu tinha 16 anos, decidi ser carpinteiro. Por isso, meu pai me mandou para Nicósia, a capital de Chipre. Sabiamente, ele providenciou para que eu ficasse na casa de Nikos Matheakis. Muitos na ilha ainda se lembram desse irmão por causa de seu zelo e  hospitalidade. Seu grande entusiasmo e sua coragem constante eram qualidades necessárias para qualquer cristão em Chipre naquela época.
O irmão Matheakis me ajudou muitíssimo a ter uma base sólida de conhecimento bíblico e a fazer progresso espiritual. Enquanto fiquei na casa dele, assisti a todas as reuniões que eram realizadas ali. Pela primeira vez, senti que meu amor por Jeová estava aumentando. Fiquei determinado a desenvolver uma relação significativa com Deus. Dentro de poucos meses, perguntei ao irmão Matheakis se eu poderia trabalhar com ele no serviço de campo. Isso foi em 1939.
Algum tempo depois, fui visitar minha família. Ficar um pouco com meu pai aumentou minha convicção de que eu tinha encontrado a verdade e o significado da vida. Em setembro de 1939, começou a Segunda Guerra Mundial. Muitos jovens da minha idade se alistaram no exército, mas, seguindo a orientação da Bíblia, decidi me manter neutro. (Isaías 2:4; João 15:19) Naquele mesmo ano dediquei-me a Jeová, e em 1940 fui batizado. Pela primeira vez, senti-me livre do temor do homem.
Em 1948, casei-me com Efprepia. Fomos abençoados com quatro filhos. Logo nos demos conta de que tínhamos de nos esforçar muito para criá-los “na disciplina e na regulação mental de Jeová”. (Efésios 6:4) Nossas orações e nossos esforços se concentraram em incutir em nossos filhos profundo amor a Jeová e respeito por suas leis e princípios.
Desafios por causa de problemas de saúde
Em 1964, aos 42 anos, comecei a sentir uma dormência na mão e na perna direita, que aos poucos se espalhou para o lado esquerdo do corpo. O diagnóstico foi atrofia muscular, uma doença incurável que, com o tempo, leva à paralisia total. Fiquei muito abalado com essa notícia. As coisas aconteceram muito rapidamente e de forma inesperada. Cheio de raiva e indignação, pensei: ‘Por que isso tinha de acontecer comigo? O que fiz para merecer isso?’ Com o tempo, porém, consegui superar o choque inicial do diagnóstico. Mas depois fui fortemente acometido por sentimentos de ansiedade e incerteza. Muitas perguntas passavam o tempo todo pela minha mente. Será que eu ficaria totalmente paralisado e teria de depender dos outros para tudo? Como eu iria lidar com a situação? Será que conseguiria prover o sustento para minha família — a esposa e os quatro filhos? Eu realmente tremia só de pensar em tudo isso.
Nesse ponto crítico da minha vida eu senti, como nunca antes, a necessidade de recorrer a Jeová em oração e de falar-lhe com toda a sinceridade sobre minhas preocupações e ansiedades. Eu orava dia e noite com lágrimas nos olhos. Mas logo fui consolado. As palavras confortadoras de Filipenses 4:6, 7 mostraram-se verazes no meu caso: “Não estejais ansiosos de coisa alguma, mas em tudo, por oração e súplica, junto com agradecimento, fazei conhecer as vossas petições a Deus; e a paz de Deus, que excede todo pensamento, guardará os vossos corações e as vossas faculdades mentais por meio de Cristo Jesus.”
Como lidei com a paralisia
Meu estado de saúde continuou a piorar. Percebi que tinha de ajustar-me rápido à nova situação. Visto que eu não podia mais trabalhar como carpinteiro, resolvi arranjar um trabalho mais leve, compatível com minha condição física, mas que, ainda assim, me possibilitasse ganhar o suficiente para sustentar minha família. Comecei vendendo sorvete num pequeno furgão. Fiz isso por cerca de seis anos, até que a doença me deixou confinado a uma cadeira de rodas. Então troquei esse trabalho por vários outros mais leves, compatíveis com as minhas limitações.
Desde 1990 minha saúde vem piorando a ponto de eu não conseguir mais fazer nenhum trabalho remunerado. Hoje dependo totalmente da ajuda de outros, até mesmo para fazer coisas que seriam corriqueiras para uma pessoa sadia. Preciso de ajuda para me deitar, tomar banho e me vestir. Para assistir às reuniões cristãs, preciso ser levado na cadeira de rodas até o carro, e depois levantado e colocado dentro dele. No Salão do Reino, preciso ser tirado do carro, colocado de volta na cadeira de rodas e então empurrado para dentro do Salão. Durante a reunião, um aquecedor elétrico é colocado perto de mim para aquecer meus pés.
Mas apesar da paralisia, sou bem assíduo às reuniões. Compreendo que é lá que Jeová nos ensina, e estar com meus irmãos e irmãs espirituais é um verdadeiro refúgio e uma fonte de apoio e encorajamento. (Hebreus 10:24, 25) Visitas regulares de irmãos espiritualmente maduros têm sido uma ajuda constante para mim. Sinto-me assim como Davi: “Meu copo está bem cheio.” — Salmo 23:5.
Minha querida esposa tem sido uma maravilhosa ajudadora todos estes anos. Meus filhos também são muito generosos em me dar apoio. Já por muitos anos eles me ajudam com as necessidades do dia-a-dia. O que eles fazem não é fácil, e com o passar dos anos fica cada vez mais difícil cuidar de mim. Eles são realmente exemplares em cultivar a paciência e em dar de si, e oro para que Jeová continue a abençoá-los.
A oração é outra provisão maravilhosa de Jeová para fortalecer seus servos. (Salmo 65:2) Em resposta às minhas súplicas sinceras, Jeová tem me dado forças para continuar na fé todos estes anos. Principalmente quando estou desanimado, a oração traz alívio e me ajuda a manter a alegria. A comunicação constante com Jeová me revigora e renova minha determinação de continuar. Estou mais do que convencido de que Jeová ouve as orações dos seus servos e lhes dá a paz mental de que precisam. — Salmo 51:17; 1 Pedro 5:7.
O que é mais importante, sinto-me revigorado toda vez que me lembro que Deus, por fim, curará todas as pessoas que foremabençoadas com a vida no Paraíso sob o Reinado do seu Filho, Jesus Cristo. Por várias vezes, lágrimas de alegria correram pelo meu rosto ao meditar nessa maravilhosa esperança. — Salmo 37:11, 29; Lucas 23:43; Revelação (Apocalipse) 21:3, 4.
O serviço de tempo integral
Por volta de 1991, depois de analisar minha situação, percebi que o melhor modo de não sentir pena de mim mesmo era me manter ocupado em falar a outros sobre as preciosas boas novas do Reino. Naquele ano, comecei a servir como ministro de tempo integral.
Visto que sou deficiente, a maioria das vezes dou testemunho por carta. Mas, para mim, escrever não é nada fácil; é preciso muito esforço. É difícil segurar a caneta com firmeza, por causa da fraqueza na mão causada pela atrofia muscular. Mas, com perseverança e oração, dou testemunho por meio de cartas já por mais de 15 anos. Também uso o telefone para pregar às pessoas. Nunca perco a oportunidade de falar aos que me visitam — parentes, amigos e vizinhos — sobre a minha esperança do novo mundo e do Paraíso na Terra.
Já tive muitos resultados animadores. Fiquei muito contente de ver um dos meus netos, com quem estudei a Bíblia uns 12 anos atrás, fazer progresso espiritual e mostrar apreço pela verdade bíblica. Motivado por sua consciência treinada pela Bíblia, ele continua leal e constante na questão da neutralidade cristã.
Fico especialmente feliz quando as pessoas a quem escrevo me contatam para obter mais informações a respeito da Bíblia. De vez em quando, algumas delas pedem mais publicações bíblicas. Por exemplo, uma senhora me telefonou para agradecer pela carta animadora que enviei ao seu marido. Ela achou os pensamentos na carta muito interessantes. Isso resultou em muitas conversas sobre a Bíblia com ela e seu marido em minha casa.
Motivos para alegria e esperança
No decorrer dos anos, vi o número de proclamadores do Reino aumentar nesta parte do mundo. Aquele pequeno Salão do Reino perto da casa de meu irmão George foi ampliado e reformado várias vezes. É um belo local de adoração, usado por duas congregações das Testemunhas de Jeová.
Meu pai morreu em 1943, aos 52 anos. Mas que herança espiritual ele deixou! Oito de seus filhos aceitaram a verdade e ainda servem a Jeová. No povoado de Xylophagou, onde meu pai nasceu, e nos povoados vizinhos, há agora três congregações com um total de 230 publicadores do Reino!
Resultados positivos como esses me dão muita alegria. Atualmente, com 83 anos, repito confiantemente as palavras do salmista: “Os próprios leões novos jubados tiveram pouca coisa e passaram fome; mas, quanto aos que buscam a Jeová, não carecerão de nada do que é bom.” (Salmo 34:10) Aguardo ansiosamente o tempo em que se cumprirá a profecia registrada emIsaías 35:6: “Naquele tempo o coxo estará escalando como o veado.” Até esse tempo chegar, estou determinado a continuar servindo a Jeová com alegria, apesar de minha deficiência física.

Eu queria ser como a filha de Jefté Narrado por Joanna Soans

Eu queria ser como a filha de Jefté
Narrado por Joanna Soans
Quando eu ainda era adolescente, queria muito ser como a filha de Jefté. Deixe-me explicar o que eu tinha em mente e como minha vida acabou sendo bem parecida com a dela.
EM 1956, assisti pela primeira vez a uma assembleia das Testemunhas de Jeová em Bombaim (agora Mumbai), Índia, e isso mudou a minha vida. Ouvi um discurso sobre a filha de Jefté que me tocou profundamente.
Como você talvez já tenha lido na Bíblia, a filha de Jefté, pelo visto quando ainda era adolescente, concordou em ficar sem se casar. Isso permitiu que seu pai cumprisse um voto que havia feito. Assim, ela continuou solteira, servindo na casa de Jeová, ou tabernáculo, pelo resto de sua vida. — Juízes 11:28-40.
Eu queria muito ser como ela! Mas havia um grande problema — na Índia, naquela época, não se casar era contra a nossa cultura.
Minha formação familiar
Sou a quinta de seis filhos de Benjamin e Marcelina Soans. Eu e meus irmãos nascemos em Udipi, uma cidade na costa oeste da Índia. Nossa língua materna é o túlu, um idioma falado por cerca de 2 milhões de pessoas. No entanto, assim como a maioria das pessoas em Udipi, nossa educação foi em canarês.
Onde morávamos, casar e ter filhos era muito importante. Desde que me conheço por gente, não me lembro de ter ouvido em túlu palavras como “solteiro”, “solidão” ou “saudade”. Era como se essas coisas não existissem. Nossa família, por exemplo, compartilhava a mesma casa com meus avós, tios e 12 primos.
Tradicionalmente, pertencíamos a um sistema matrilinear, no qual os filhos eram considerados parte da família da mãe. A descendência era traçada por meio dela, e as filhas recebiam a maior parte da herança. Em algumas comunidades túlu, a moça continuava morando com a mãe depois de se casar, e o marido a acompanhava.
Visto que minha família havia se tornado cristã nominal, algumas coisas eram diferentes em casa. Toda noite, meu avô tomava a liderança na adoração, orando e lendo em voz alta trechos da Bíblia em túlu. Quando ele abria sua velha Bíblia, parecia que estava abrindo uma caixa de joias. Era emocionante! O Salmo 23:1 me intrigava: “Jeová é o meu Pastor. Nada me faltará.” Eu me perguntava: ‘Quem é esse Jeová, e por que ele é chamado de pastor?’
“Escamas” caíram de meus olhos
Por causa das dificuldades econômicas após a Segunda Guerra Mundial, nos mudamos para Bombaim, a mais de 900 quilômetros de distância. Ali, em 1945, duas Testemunhas de Jeová visitaram meu pai e lhe deram um folheto bíblico. Ele leu aquela mensagem tão avidamente como um solo seco absorve a água da chuva, e passou a divulgá-la a outras pessoas que falavam canarês. No início dos anos 50, um pequeno grupo de estudo cresceu e se tornou a primeira congregação no idioma canarês em Bombaim.
Nossos pais nos ensinaram a ser bons estudantes e instrutores da Bíblia. Cada dia, eles procuravam oportunidades para orar e estudar conosco. (Deuteronômio 6:6, 7; 2 Timóteo 3:14-16) Certo dia, quando eu estava lendo a Bíblia, escamas, por assim dizer, caíram de meus olhos. (Atos 9:18) Aprendi que Jeová é comparado a um pastor porque ele guia, alimenta e protege seus adoradores. — Salmo 23:1-6; 83:18.
Jeová segurou a minha mão
Fui batizada logo após o memorável congresso de 1956 em Bombaim. Seis meses depois, segui o exemplo de meu irmão mais velho, Prabhakar, e me tornei evangelizadora por tempo integral. Embora estivesse ansiosa para divulgar as verdades da Bíblia a outros, minha boca ficava seca quando eu tentava falar sobre as minhas crenças. Eu gaguejava, e minha voz tremia. Desesperada, dizia a mim mesma: ‘Só vou conseguir fazer esse trabalho com a ajuda de Jeová.’
A ajuda de Jeová veio com os missionários Homer e Ruth McKay, do Canadá, que haviam se formado na escola para missionários das Testemunhas de Jeová em Nova York, EUA, em 1947. Eles, por assim dizer, seguraram a minha mão, ao passo que de forma desajeitada eu dava meus primeiros passos no serviço de evangelização. Ruth sempre treinava comigo as apresentações de casa em casa. Ela sabia exatamente como me acalmar. Segurando minhas mãos trêmulas, dizia: “Não se preocupe, querida. Vamos tentar na próxima casa.” Sua voz reanimadora me dava coragem.
Um dia, fiquei sabendo que Elizabeth Chakranarayan, uma instrutora da Bíblia mais velha e experiente, seria minha colega no serviço de evangelização. Minha primeira reação foi: ‘Como vou conseguir viver com essa irmã? Ela é muito mais velha do que eu!’ Mas ela acabou se tornando a amiga que eu precisava.
“Nunca estamos realmente sozinhos”
Nossa primeira designação foi na cidade histórica de Aurangabad, quase 400 quilômetros a leste de Bombaim. Não demorou muito para sentir o que era sermos as únicas Testemunhas de Jeová numa cidade de quase 1 milhão de pessoas. Além disso, tive de aprender marata, a língua mais falada ali.
Às vezes, ondas de solidão se abatiam sobre mim, e eu soluçava como uma criança sem mãe. Mas a voz maternal de Elizabeth me animava. “Talvez nos sintamos solitários às vezes, mas nunca estamos realmente sozinhos”, dizia ela. “Apesar de estar longe de seus amigos e de sua família, Jeová está sempre com você. Faça dele o seu amigo, e sua solidão logo desaparecerá.” Até hoje valorizo esse conselho.
Quando o dinheiro para transporte era pouco, chegávamos a andar 20 quilômetros cada dia na poeira e na lama, no calor e no frio. No verão, a temperatura muitas vezes chegava a 40° C. Durante a época das monções, partes do território ficavam com lama por meses. Ainda assim, achávamos os conceitos culturais das pessoas mais desafiadores do que o clima.
As mulheres não falavam com os homens em público, a não ser que fossem parentes, e raramente ensinavam os homens. Por isso, sofríamos zombaria e ofensas. Nos primeiros seis meses ali, só nós duas nos reuníamos para as reuniões bíblicas semanais. Com o tempo, pessoas interessadas vieram também. Logo formou-se um pequeno grupo. Alguns até passaram a nos acompanhar na pregação.
Continue aguçando  suas habilidades”
Depois de uns dois anos e meio, fomos designadas para Bombaim. Elizabeth continuou na obra de pregação, mas eu fui convidada para ajudar meu pai que, na época, era o único que traduzia nossas publicações bíblicas para o canarês. Ele ficou feliz com isso, visto que tinha muitas responsabilidades na congregação.
Em 1966, meus pais decidiram voltar para Udipi, onde havíamos morado antes. Ao partir, meu pai disse: “Continue aguçando suas habilidades, minha filha. Traduza de forma simples e clara. Evite ser confiante demais, e permaneça humilde. Confie em Jeová.” Esse foi seu último conselho para mim, pois ele faleceu logo depois de voltar a Udipi. Tenho me esforçado até hoje para fazer exatamente isso em meu trabalho de tradução.
“Você não quer casar e ter filhos?”
Na Índia, é tradição os pais arranjarem o casamento de seus filhos quando eles ainda são bem jovens e os incentivarem a ter filhos. Por isso, sempre me perguntavam: “Você não quer casar e ter filhos? Quem vai cuidar de você quando ficar velha? Não vai se sentir só?”
Às vezes, me sentia sufocada com esses comentários. Embora escondesse meus sentimentos em público, eu derramava meu coração a Jeová quando ficava sozinha. Sentia-me consolada por saber que, para ele, o fato de ser solteira não era um defeito. Para continuar determinada a servi-lo sem distração, eu pensava na filha de Jefté e também em Jesus — os dois permaneceram solteiros e se concentraram em fazer a vontade de Deus. — João 4:34.
Um presente de Jeová
Eu e Elizabeth continuamos muito amigas por quase 50 anos. Ela faleceu em 2005, aos 98 anos. Não podendo ler a Bíblia por causa de sua vista fraca nos últimos anos, ela passava a maior parte do tempo fazendo orações longas e fervorosas a Deus. Às vezes, eu achava que ela estava falando da Bíblia com alguém no quarto, mas descobria que estava falando com Jeová. Ele era uma Pessoa real para ela, e ela vivia como se estivesse na presença dele. Aprendi que isso é vital para perseverar no serviço a Deus, assim como fez a filha de Jefté. Sou muito grata a Jeová por ter me dado uma irmã mais velha e madura para me orientar em minha juventude e durante todas as minhas provações. — Eclesiastes 4:9, 10.
Tenho recebido muitas bênçãos por servir a Jeová como a filha de Jefté serviu. Continuar solteira e seguir os conselhos da Bíblia me ajudou a ter uma vida rica e recompensadora e, ao mesmo tempo, a “assistir constantemente ao Senhor, sem distração”. — 1 Coríntios 7:35.