domingo, 22 de abril de 2012


A ciência era a minha religião

Narrada por KENNETH TANAKA

“A VERDADE vos libertará.” Essas palavras, que aparecem numa das inscrições do Instituto de Tecnologia da Califórnia, me motivaram a buscar o reconhecimento no campo científico. Entrei nessa instituição de ensino superior em 1974 para me tornar pesquisador. Depois de me formar e de fazer mestrado em geologia, continuei meus estudos na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara.

À medida que eu progredia  na minha carreira como cientista, passei também a fazer mudanças drásticas nos meus conceitos e valores espirituais. Embora o fato de estudar a teoria evolucionista tivesse me afastado de Deus, mais tarde fui obrigado a reavaliar meus conceitos. Como foi que eu, geólogo e pesquisador, tornei-me também servo dedicado de Deus? Permitam-me contar-lhes como isso aconteceu.

Menino fascinado com o cosmo

Desde a infância sempre fui fascinado pela ciência. Cresci em Seattle, Washington, EUA, e meus pais me incentivavam muito nos estudos. Eu gostava de ler sobre o Universo — os blocos de construção da matéria e da vida, as forças fundamentais, o espaço, o tempo, a relatividade. Quando tinha cerca de oito anos de idade, notando minha grande queda para a área científica, a escola providenciou um professor particular de ciências para me dar aulas semanalmente.

Eu freqüentava a escola dominical numa igreja batista, mas fazia isso mais para participar das excursões de caminhada e de camping nas montanhas. Minha família não demonstrava nenhum interesse em religião ou em Deus. Quando estudei história e fiquei a par das horríveis atrocidades cometidas pela religião, minha consciência não me permitiu mais participar das atividades da igreja. Comecei também a duvidar da existência de Deus, pois a ciência parecia fornecer respostas para quase tudo.

Reavaliei meus conceitos

Minha intenção era estudar física, mas no último ano do ensino médio fiz um curso de geologia, que incluía viagens em campo a notáveis afloramentos rochosos no Estado de Washington. Pensei comigo: ‘Seria maravilhoso conciliar o meu amor à natureza com o meu amor à ciência.’

Assim, quando entrei na faculdade, decidi me especializar em geologia. Estudei sobre eras geológicas e a história da Terra conforme revelada pelo registro fóssil. As aulas sobre os fósseis incluíam a teoria da evolução das espécies. Mas, no meu entender, a evolução ainda precisava ser comprovada. Mesmo assim achava que, como teoria, a evolução era uma explicação razoável para as evidências geológicas disponíveis, especialmente se comparada ao criacionismo popular. Quando ouvi falar que haveria um debate no campus entre criacionistas e evolucionistas, nem me interessei em ir. Era mais do que evidente que a Terra não fora criada em menos de uma semana, como afirmam alguns criacionistas.

Apesar de meus fortes conceitos anti-religiosos, as viagens que fiz para estudar geologia no sudoeste dos Estados Unidos me obrigaram a reavaliar meus conceitos sobre a existência de Deus. Naquela região, à noite, ao observar a beleza dos céus límpidos e estrelados sobre o deserto, tive de admitir que Deus devia ter criado o Universo. Os astrônomos haviam confirmado que o Universo teve começo, mas eu sabia que nunca haveria uma explicação puramente científica de por que isso ocorrera. Parecia fazer sentido crer que um Criador poderoso e inteligente havia projetado e criado o cosmo.

O mapeamento de Marte me induz a novas reflexões

Quando terminei o doutorado em ciências geológicas em 1983, aos 27 anos, eu estava mapeando a geologia de Marte para o Serviço de Pesquisa Geológica dos EUA. Desde então publiquei dezenas de artigos e mapas sobre geologia planetária tanto para a comunidade científica como para o público em geral. Servindo em comissões de consultoria da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço, trabalhava em equipes de apoio a missões espaciais a Marte. Em razão do meu trabalho e pesquisas, conheci respeitados cientistas planetários de diversos países, universidades e instituições de pesquisa.

Meus estudos e experiência como pesquisador aos poucos corrigiram a visão idealística que eu tinha da ciência. Percebi que a ciência não tem, nem jamais terá, todas as respostas. Compreendi também que ela não fornece um objetivo ou sentido duradouro para a vida. Segundo os conceitos científicos atuais, o Universo por fim entrará em colapso ou se dissipará, transformando-se numa massa disforme. Se o destino da humanidade fosse a extinção, que sentido poderia haver para a nossa existência?

Descobrindo novos horizontes

Em setembro de 1981, quando estava morando em Flagstaff, Arizona, fui contatado pelas Testemunhas de Jeová. Aceitei fazer um curso bíblico com a intenção de provar que tanto elas como a Bíblia estavam erradas. E, além disso, era uma oportunidade para descobrir o que a Bíblia realmente ensina.

Comecei a passar várias horas por semana examinando a fundo os ensinos bíblicos. Para minha surpresa, encontrei profundo conhecimento e sabedoria nas páginas da Bíblia. Fiquei fascinado ao constatar a exatidão científica da Bíblia e saber de centenas de profecias detalhadas que se cumpriram em acontecimentos ocorridos durante milhares de anos de história humana. Algo que me impressionou muito foi ver que diversas profecias bíblicas — de Daniel e de Revelação (Apocalipse) — se combinam para fornecer uma base sólida para determinar que estamos vivendo nos “últimos dias”. — 2 Timóteo 3:1.

Ao estudar a Bíblia, sem saber estava seguindo os passos percorridos por grandes cientistas do passado. Mais tarde soube que Sir Isaac Newton, considerado um dos maiores gênios da ciência de todos os tempos, admirava a Bíblia e a pesquisou a fundo. Assim como Newton, eu me detive nas profecias de Daniel e de Revelação que predisseram grandes acontecimentos históricos que se cumpriram. Mas a minha grande vantagem era estar vivendo durante e após o cumprimento das muitas profecias que, nos dias de Newton, ainda estavam no futuro. Descobri que essas profecias tratam dos mais diversos assuntos e eventos, sendo abrangentes, infalíveis e incontestáveis. Fiquei admirado ao saber que a Bíblia inteira, escrita por mais de 40 homens num período de mais de 1.600 anos, contém uma mensagem coerente e poderosa sobre as grandes questões que confrontam a humanidade e seu futuro.

Mas não foi fácil abandonar a crença na evolução. Eu respeitava o peso da autoridade científica por trás dessa teoria. Contudo, descobri que todas as declarações bíblicas sobre o mundo físico estão inteiramente em harmonia com os fatos conhecidos e são irrefutáveis. Compreendi que, para se obter um entendimento cabal e coerente do conteúdo abrangente e interligado da Bíblia, não se pode descartar nenhum ensino, incluindo o relato da criação em Gênesis. Discerni assim que aceitar a Bíblia inteira como a verdade era a única conclusão razoável.

Contínua busca da verdade

Ao participar de pesquisas científicas, muitas vezes vi teorias serem amplamente aceitas por um tempo, até se provarem incorretas. Parte da dificuldade para nós, cientistas, é que lidamos com assuntos complexos, ao passo que os dados e os instrumentos de pesquisa de que dispomos são limitados. Assim, aprendi a ter cautela em aceitar como fato teorias não comprovadas, não importa quão cuidadosamente tenham sido elaboradas.

Realisticamente falando, muitos aspectos fundamentais do mundo natural não podem ser explicados pela ciência. Por exemplo, por que os blocos de construção da vida e as leis físicas que os governam de forma tão perfeita são adequados para sustentar os complexos processos da vida e dos ecossistemas? Ao passo que a ciência não consegue revelar Deus, Sua Palavra inspirada fornece evidência tangível de sua existência e atividades como o Criador. (2 Timóteo 3:16) Com esse conhecimento espiritual, podemos chegar a conhecer Aquele que é responsável pelo poder, pela sabedoria e pela beleza evidentes no mundo físico.

Estudar a fundo diversas publicações das Testemunhas de Jeová, incluindo os livros A Vida — Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação? e Existe um Criador Que Se Importa com Você? reforçou ainda mais minha convicção de que a Bíblia é cientificamente exata. Essas publicações analisam assuntos científicos profundos, apresentando pesquisas correntes e as conclusões de especialistas renomados. Mostram também que os fatos científicos conhecidos estão em harmonia com o entendimento correto da Bíblia.

Para citar um exemplo, ali se mostra que o registro fóssil está de acordo com a seqüência geral do aparecimento das formas vivas apresentada no livro de Gênesis. Além disso, um dia criativo, conforme a concepção dos antigos, pode significar uma época de longa duração, da mesma forma que os termos “período” e “era” são usados pela ciência para descrever a história da Terra. Assim, a Bíblia não discorda das descobertas científicas. Ela mostra que os dias criativos foram muito extensos, não endossando a conclusão de criacionistas que acreditam que cada dia criativo teve 24 horas de duração.

Fé em oposição à credulidade

Como cientista, abomino a credulidade, mas respeito muito a fé baseada em fatos. Essa fé sólida é definida em Hebreus 11:1: “A fé é a expectativa certa de coisas esperadas, a demonstração evidente de realidades, embora não observadas.” A confiança nas promessas de Deus é fundada em provas estabelecidas de que a Bíblia é inspirada por Deus. Compreendi que era preciso evitar doutrinas religiosas populares, mas infundadas, que contradizem as Escrituras. Essas incluem os ensinos da imortalidade da alma, do inferno de fogo, da Trindade, e outras. Muitas dessas doutrinas errôneas surgiram de antigas filosofias e mitologias ou de uma interpretação errônea da Bíblia. Apegar-se a ensinos falsos tem levado à ‘fé cega’ praticada por muitos religiosos hoje em dia, o que tem feito com que grande número de cientistas não respeite a religião.

Uma das minhas responsabilidades primárias como cientista tem sido definir, defender e divulgar minhas descobertas científicas. De forma similar, senti-me na responsabilidade de ensinar a verdade bíblica a outros, visto que nenhum outro conhecimento tem maior relevância. Assumi essa atividade gratificante e fui batizado como Testemunha de Jeová uns 20 anos atrás. Em setembro de 2000, aumentei o tempo gasto na atividade de pregação para uma média de 70 horas por mês. Desde então, tenho tido o privilégio de dirigir, todo mês, estudos bíblicos com até dez pessoas interessadas e ver diversos estudantes se tornarem zelosos instrutores da Bíblia.

Eu ainda gosto de estudar sobre Marte e outras partes do Universo por meio dos “olhos” de sofisticadas naves espaciais enviadas para explorar os corpos celestes vizinhos da Terra. Muitos mistérios continuam a desafiar a ciência. Aguardo o futuro, em que a busca do homem — tanto pelo conhecimento espiritual como pelo esclarecimento científico — satisfará nossa mente inquisitiva e fornecerá as respostas às perguntas mais profundas que possamos ter. Compreendi que o verdadeiro significado da vida está relacionado com o conhecimento de Deus e de seu propósito para com a humanidade. Esse é o verdadeiro sentido das palavras de Jesus encontradas na inscrição do Instituto de Tecnologia da Califórnia: “A verdade vos libertará.” — João 8:32, Almeida.

Nota
No seu livro Observations Upon the Prophecies of Daniel, and the Apocalypse of St. John (Observações sobre as Profecias de Daniel e do Apocalipse de São João), publicado em 1733, Sir Isaac Newton fez uma análise das profecias dos livros bíblicos de Daniel e de Revelação.


A ciência e a Bíblia me ajudaram a encontrar o significado da vida

NARRADA POR BERND OELSCHLÄGEL

Minha busca pelo significado da vida durou 20 anos. Duas coisas me ajudaram a encontrá-lo: a ciência e a Bíblia. A ciência me deu provas de que a vida tem de ter um significado. Mas foi a Bíblia que o revelou a mim e me ajudou a entendê-lo.

PODE ser que você já tenha ouvido alguns dizerem que a ciência contradiz a Bíblia. Eu estudei ambas e não posso concordar com essa afirmação. Talvez queira saber por quê.

Nasci em 1962 em Stuttgart, cidade no sul da Alemanha. Meu pai trabalhava como projetista e, junto com a minha mãe, era bem ativo na igreja. Minha irmã, Karin, é quatro anos mais velha do que eu. Uma ocasião que marcou minha infância foi quando meu pai me deu um kit de experiências científicas. Eu me divertia fazendo experimentos simples de química e física. Eu gostava de aprender.

Mais tarde deixei de lado o kit de experiências e passei a brincar com o computador. Mesmo na adolescência, eu já percebia que o melhor computador é o cérebro, mas pensava: ‘De onde vem o cérebro? Quem fez esse órgão para nós? E qual é o significado da vida?’

Na universidade

Saí da escola aos 16 anos e comecei a trabalhar como ajudante num laboratório fotográfico, para aprender o ofício. Visto que eu gostava tanto de aprender, meu desejo era estudar física na universidade. Mas ainda levaria tempo para eu poder entrar numa. Demorou cinco anos até que eu satisfizesse as exigências para isso. Entrei na universidade em 1983, em Stuttgart, e continuei os estudos em Munique. Finalmente, tornei-me doutor em física na Universidade de Augsburgo, em 1993.

Os primeiros dias na universidade não foram fáceis. O auditório em geral ficava lotado com uns 250 estudantes, muitos dos quais desistiram do curso em algumas semanas. Eu estava decidido a não desistir mas terminar o que tinha começado. Muitos estudantes que moravam no mesmo lugar que eu queriam apenas se divertir. A companhia deles nem sempre era boa. Acabei participando em muitas festas e usando drogas.

Minha busca me leva à Índia

A física me deu uma profunda compreensão das leis naturais do Universo. Eu achava que a ciência ia acabar revelando para mim o significado da vida. Mas não era a física que podia explicar o que eu queria saber. Em 1991, viajei com um grupo à Índia para aprender meditação oriental. Conhecer aquele país e seu povo em primeira mão foi uma oportunidade maravilhosa. Mas fiquei chocado com o contraste entre os ricos e os pobres.

Perto da cidade de Pune, por exemplo, visitamos um guru que dizia que desenvolver as técnicas corretas de meditação podia ajudar a pessoa a enriquecer. Meditávamos em grupo toda manhã. O guru também cobrava caro por medicamentos, e era óbvio que ele ganhava muito dinheiro; seu modo de vida confirmava isso. Em contraste com o guru, vimos também monges que pareciam viver em pobreza. Perguntei-me: ‘Por que a meditação não os torna ricos também?’ A viagem à Índia não tirou minhas dúvidas.

Um dos objetos que eu trouxe da viagem foi um sino de meditação. Disseram-me que se ele fosse tocado corretamente, emitia um som que me ajudaria a meditar da maneira certa. Na Alemanha, adquiri um horóscopo traçado por uma pessoa que dizia ser capaz de prever meu futuro. Mas a meditação não me revelou nada sobre a vida e, para minha decepção, descobri que o horóscopo não era nada mais do que um pedaço inútil de papel. Assim, minhas dúvidas a respeito do significado da vida perduravam.

Encontrei respostas na Bíblia

Minha vida mudou inesperadamente em 1993. Eu tinha terminado os estudos e estava escrevendo minha tese de doutorado sobre física quântica. Deixando tudo de lado, eu trabalhava quase dia e noite para entregar a tese no prazo. Certa tarde, duas senhoras bateram na minha porta.

“Você sabia que 1914 foi um ano muito especial, segundo a Bíblia?”, perguntaram. Fiquei confuso; eu nunca tinha ouvido uma coisa dessas e nem tinha tempo para pesquisar isso. Mesmo assim, a pergunta me deixou intrigado. Como elas podiam afirmar que a Bíblia há muito tempo apontava para 1914 como um ano marcado?

“Gostaria de saber mais?”, continuaram. Eu pensei: ‘Se eu ouvir o que elas têm a dizer, com certeza vou encontrar alguma contradição em seus argumentos.’ Em vez de contradições, porém, encontrei provas convincentes de que podemos confiar na Bíblia. Descobri que a profecia bíblica indica claramente que o Reino messiânico de Deus — um governo celestial que no tempo certo reinará sobre a Terra — foi estabelecido em 1914.

As duas senhoras eram Testemunhas de Jeová e me deram o livro Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra. Li o livro em poucos dias e achei tudo muito lógico e razoável. As Testemunhas de Jeová me mostraram dentro da Bíblia que a vontade de Deus é que toda a humanidade viva para sempre num paraíso na Terra. De acordo com a profecia bíblica, essa promessa logo se cumprirá. Essa esperança maravilhosa para o futuro tocou meu coração e encheu meus olhos de lágrimas! Será que eu tinha encontrado o que buscava havia 20 anos?

Logo reconheci o objetivo da minha vida: conhecer a Jeová Deus e servi-lo de todo o coração. Continuei estudando a Bíblia com as Testemunhas de Jeová e percebi que o que estava aprendendo era a verdade. Minha sede por coisas espirituais era tanta que, enquanto eu terminava a tese, li metade da Bíblia em três meses.

Encontro algo mais

Em maio de 1993, assisti pela primeira vez a uma reunião na congregação local das Testemunhas de Jeová, num Salão do Reino de Augsburgo. Os ensinamentos soavam verdadeiros. Além disso, eu me sentia à vontade entre as Testemunhas de Jeová. Elas me receberam calorosamente e fizeram eu me sentir bem-vindo, mesmo sendo desconhecido. Uma senhora idosa sentada ao meu lado até se deu ao trabalho de providenciar um cancioneiro para mim. Nas semanas seguintes, um senhor Testemunha de Jeová e seu filho jovem me levavam de carro ao Salão do Reino. Logo recebi convites para ir às casas desses novos amigos. Com o tempo, tive vontade de transmitir a outros o que eu estava aprendendo sobre o significado da vida.

Levar a sério o que tinha aprendido da Bíblia já estava me motivando a fazer mudanças. Por exemplo, eu não queria mais ter objetos relacionados ao ocultismo. Por isso, me livrei dos horóscopos, do sino de meditação e também de outros objetos religiosos que tinha trazido da Índia. Meu estudo bíblico progrediu e me dediquei a Jeová Deus, batizando-me em junho de 1994, em Munique. Ao fazer isso, abracei de todo o coração o verdadeiro significado da vida.

Em setembro de 1995, tornei-me pioneiro regular, ministro de tempo integral das Testemunhas de Jeová. Assim, eu gastava mais tempo conversando com as pessoas sobre os propósitos de Deus. Eu confiava na força que Jeová nos dá para fazer esse trabalho. Muitas vezes eu chegava em casa no fim da tarde, após várias horas no ministério, sentindo uma alegria e um contentamento que nunca tinha sentido antes de conhecer a Jeová. Em janeiro de 1997, fui convidado a continuar o serviço de tempo integral em Selters, na sede das Testemunhas de Jeová na Alemanha, lugar conhecido como Betel, onde vivo atualmente. Meus pais me visitaram várias vezes e, apesar de terem uma crença diferente, agora respeitam Betel e estão contentes por eu estar aqui.

A ciência e a Bíblia

Alguns talvez se perguntem como alguém que passou anos estudando ciência pode acreditar no que a Bíblia diz. Bem, eu não encontrei contradições entre a ciência e a Bíblia. Como físico, estudei as leis que regulam a vida, e essas leis dão evidência de que foram projetadas por uma inteligência muitíssimo superior à nossa.
Por exemplo, há muitas teorias em física, química e biologia que, apesar de talvez parecerem simples, envolvem cálculos muito complexos. Cientistas brilhantes propõem teorias e ganham o Prêmio Nobel por seu trabalho. Quanto mais brilhante deve ser quem projetou e deu origem ao Universo, que os cientistas se esforçam tanto em entender!

Afirmar, como muitos evolucionistas fazem, que a vida surgiu por acaso vai muito além da lógica. Para ilustrar: Imagine dez bolas de futebol alinhadas a 1 metro umas das outras. Chutando a primeira bola, tente fazer com que cada uma atinja a seguinte de modo que todas sejam atingidas. Além disso, tente prever a posição final de cada uma. A probabilidade de isso dar certo é tão pequena que dificilmente alguém achará ser possível.

Assim sendo, como alguém pode afirmar que o desenvolvimento da célula humana — que envolve processos muito mais complexos do que chutar bolas de futebol — pode ter acontecido simplesmente por acaso? A explicação mais razoável é que um Ser muitíssimo inteligente criou os humanos e todas as outras formas de vida na Terra. Será que esse Ser, o Criador, faria algo assim sem ter um objetivo? É claro que não. Ele tinha de ter um objetivo, e esse objetivo é revelado e explicado claramente na Bíblia.

Como pode ver, a ciência e a Bíblia me ajudaram a encontrar respostas para as dúvidas que tive durante muito tempo. Pode imaginar o maravilhoso sentimento de alívio e prazer ao encontrar algo que você buscou durante 20 anos? Meu desejo sincero é ajudar o maior número possível de pessoas a encontrar o que eu finalmente encontrei — não apenas respostas para as minhas dúvidas mas, mais importante, a maneira correta de adorar o único Deus verdadeiro, Jeová.

Nota
Para uma consideração detalhada, veja o capítulo 10, “O Reino de Deus já domina”, nas páginas 90-7 do livro Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna, publicado pelas Testemunhas de Jeová.


“A batalha não é vossa, mas de Deus”

CONFORME NARRADO POR W. GLEN HOW

Nas últimas seis décadas, as Testemunhas de Jeová travaram diversas batalhas legais no Canadá. Suas vitórias atraíram a atenção da comunidade jurídica. Devido ao papel que desempenhei em algumas dessas batalhas, recebi recentemente o Prêmio do Advogado Corajoso, da Associação Americana de Advogados.
Na cerimônia de premiação, foi dito que os casos de Testemunhas de Jeová “formaram baluartes importantes contra excessos por parte do Estado . . ., pois criaram uma carta de direitos implícita, aceita legalmente, que reconhece e protege as liberdades de todos os canadenses”. Deixe-me contar-lhe detalhes de alguns desses julgamentos e explicar como me envolvi com a advocacia e as Testemunhas de Jeová.
EM 1924, George Rix, um Estudante da Bíblia (como as Testemunhas de Jeová eram chamadas então), visitou meus pais em Toronto, Canadá. Minha mãe, Bessie How, uma mulher de estatura baixa, convidou-o a entrar para conversar. Eu tinha cinco anos e meu irmão, Joe, três.

Mamãe logo começou a assistir às reuniões dos Estudantes da Bíblia, em Toronto. Em 1929, ela se tornou pioneira, ou ministra de tempo integral, e continuou nessa atividade até 1969, quando terminou sua carreira terrestre. Seu ministério decidido e incansável foi um ótimo exemplo para nós e ajudou muitos a conhecer a verdade bíblica.

Meu pai, Frank How, era um homem calado que, de início, se opôs às atividades religiosas de mamãe. Mas ela sensatamente convidava ministros viajantes, como George Young, para nos visitar e conversar com o meu pai. Com o tempo, a atitude dele melhorou. Ao observar o efeito benéfico que a verdade bíblica exercia sobre a família, ele passou a apoiar-nos muito, embora nunca se tornasse Testemunha de Jeová.

A decisão de servir a Deus

Em 1936, terminei o ensino médio. Durante a adolescência, eu não tinha muito interesse em coisas espirituais. Vivíamos em meio à Grande Depressão e as perspectivas de emprego eram ruins. Assim, entrei na Universidade de Toronto. Em 1940, decidi cursar direito. Minha mãe não se surpreendeu com essa decisão. Quando eu era criança e ela ficava irritada comigo, muitas vezes dizia: “Esse danadinho discute por qualquer coisa! Quando crescer, provavelmente vai ser advogado.”

Em 4 de julho de 1940, pouco antes de eu iniciar a faculdade de direito, o governo canadense sem avisar proscreveu as Testemunhas de Jeová. Esse foi um momento decisivo na minha vida. Quando todo o poder governamental se voltou contra essa pequena organização de pessoas inocentes e humildes, me convenci de que as Testemunhas de Jeová eram os verdadeiros seguidores de Jesus. Exatamente como ele profetizara, elas eram “pessoas odiadas por todas as nações, por causa do [seu] nome”. (Mateus 24:9) Resolvi servir ao Poder Divino por trás dessa organização. Em 10 de fevereiro de 1941, simbolizei minha dedicação a Jeová Deus pelo batismo em água.

Eu queria entrar imediatamente no serviço de pioneiro. Mas Jack Nathan, que na época tomava a dianteira na obra de pregação no Canadá, me incentivou a terminar a faculdade de direito. Foi o que fiz: me formei em maio de 1943 e depois entrei no serviço de pioneiro. Em agosto, fui convidado para servir na congênere da Sociedade Torre de Vigia (EUA) em Toronto para assessorar em problemas jurídicos que as Testemunhas de Jeová estavam enfrentando. No mês seguinte, fui aceito na ordem dos advogados de Ontário, Canadá.

Defesa legal das boas novas

O mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial e as Testemunhas de Jeová ainda estavam proscritas no Canadá. Homens e mulheres eram presos apenas por serem Testemunhas. Crianças eram expulsas da escola e algumas eram até mandadas para lares adotivos. Tudo isso acontecia porque elas se recusavam a participar em formas nacionalistas de adoração, como saudar a bandeira ou cantar o hino nacional. O professor William Kaplan, que escreveu o livro State and Salvation: The Jehovah’s Witnesses and Their Fight for Civil Rights (O Estado e a Salvação: As Testemunhas de Jeová e sua Luta pelos Direitos Civis), disse que as pessoas “zombavam das Testemunhas em público e elas sofriam tanto ações do Estado como ataques particulares por parte de um governo intolerante e de cidadãos abertamente hostis, inflamados por paixão e patriotismo do tempo de guerra”.

As Testemunhas de Jeová tentaram fazer com que a proscrição fosse removida, mas sem êxito. De repente, em 14 de outubro de 1943, ela foi cancelada. Mas ainda havia Testemunhas presas e em campos de trabalhos forçados; crianças ainda eram proibidas de cursar a escola pública e continuava de pé a proscrição contra a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados e a Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia. Nossa propriedade em Toronto estava no nome desta última.

No fim de 1943, viajei para Nova York com Percy Chapman, que era servo da filial do Canadá, para conversar com Nathan Knorr, na época presidente da Sociedade Torre de Vigia (EUA), e Hayden Covington, vice-presidente e consultor jurídico da Sociedade. O irmão Covington tinha vasta experiência na área jurídica. Ele acabou conseguindo uma marca impressionante: ganhou 36 das 45 apelações feitas à Suprema Corte dos Estados Unidos.

Aos poucos, as Testemunhas de Jeová no Canadá conseguiram resolver os problemas. Em 1944, a propriedade da congênere em Toronto foi devolvida e os que serviam ali antes da proscrição puderam voltar. Em 1945, o tribunal de maior instância da província de Ontário declarou que não se podia obrigar crianças a participar em atividades que considerassem objetáveis por questão de consciência. O tribunal ordenou que as crianças expulsas da escola fossem readmitidas. Por fim, em 1946, o governo canadense libertou todas as Testemunhas de Jeová que ainda estavam em campos de trabalhos forçados. Com a orientação do irmão Covington, aprendi a defender essas causas com coragem e determinação, mas acima de tudo, com confiança em Jeová.

A batalha de Quebec

Embora a liberdade religiosa das Testemunhas de Jeová fosse então respeitada na maior parte do Canadá, havia uma exceção: a província católica de Quebec, de origem francesa. Essa província era controlada diretamente pela Igreja Católica Romana havia mais de 300 anos. Escolas, hospitais e a maioria dos serviços públicos eram dirigidos ou controlados pelos clérigos. Na assembléia legislativa de Quebec, ao lado da cadeira do orador, havia até um trono para o cardeal católico.

O primeiro-ministro e procurador-geral de Quebec, Maurice Duplessis, era um ditador que, segundo o historiador quebequense Gérard Pelletier, impôs à província “20 anos de um reinado de mentiras, injustiças e corrupção, o mau uso sistemático do poder, o domínio das mentes tacanhas e o triunfo da estupidez”. Duplessis consolidou seu poder político trabalhando de comum acordo com o cardeal católico-romano Villeneuve.

No início dos anos 40, havia 300 Testemunhas de Jeová em Quebec. Muitas delas, incluindo meu irmão, Joe, eram pioneiros de outras partes do Canadá. À medida que a obra de pregação crescia em Quebec, a polícia local reagia, pressionada pelos clérigos. As Testemunhas de Jeová eram importunadas com sucessivas prisões e com a aplicação incorreta de leis comerciais, que a polícia dizia se aplicarem às nossas atividades religiosas.

Eu viajava de Toronto para Quebec com tanta freqüência que, com o tempo, fui transferido para Quebec a fim de assessorar advogados não-Testemunhas de Jeová, que estavam representando nossos irmãos cristãos. Todo dia, minha primeira tarefa era descobrir quantos haviam sido presos no dia anterior e correr até o tribunal local para providenciar fiança. Felizmente, uma Testemunha de Jeová abastada, Frank Roncarelli, pôde fornecer o dinheiro para a fiança em muitos desses casos.

De 1944 a 1946, o número de processos por alegadas violações de leis locais saltou de 40 para 800! Além de serem presas e importunadas continuamente pelas autoridades, as Testemunhas de Jeová eram atacadas também por turbas de arruaceiros incitadas pelos clérigos católicos.

Em 2 e 3 de novembro de 1946, realizou-se em Montreal uma reunião especial para tratar da crise. O irmão Knorr proferiu o último discurso, intitulado: “O que faremos?” Todos na assistência ficaram felizes de ouvir a resposta: ele leu em voz alta o documento histórico intitulado Quebec’s Burning Hate for God and Christ and Freedom Is the Shame of All Canada (O Ódio Ardente de Quebec a Deus, a Cristo e à Liberdade É uma Vergonha para Todo o Canadá). Esse tratado de quatro páginas tinha uma mensagem ardente: expunha em detalhes nomes, datas e lugares em que ocorreram casos de tumultos instigados por clérigos, brutalidade policial, prisões e violência de turbas contra Testemunhas de Jeová em Quebec.
Apenas 12 dias depois, iniciou-se a distribuição por todo o Canadá.

Em questão de dias, Duplessis anunciou publicamente uma “guerra sem trégua” contra as Testemunhas de Jeová. Mas sem querer ele nos ajudou. Como? Ele ordenou que todos os que distribuíssem o tratado Quebec’s Burning Hate fossem acusados de sedição, um crime muito grave que faria com que os casos fossem julgados, não pelos tribunais de Quebec, mas pela Suprema Corte do Canadá. Louco de raiva, Duplessis despercebeu essa conseqüência. Daí, ele ordenou pessoalmente o cancelamento da licença de venda de bebidas alcoólicas de Frank Roncarelli, que em muitos casos nos ajudara a pagar fianças. Sem poder vender vinho, o excelente restaurante que o irmão Roncarelli tinha em Montreal fechou em questão de meses e ele ficou arruinado em sentido financeiro.

As prisões aumentaram. Em vez de 800 processos, logo enfrentávamos 1.600. Muitos advogados e juízes reclamavam que todos esses casos contra Testemunhas de Jeová estavam entupindo os tribunais de Quebec. Em resposta, sugerimos uma solução simples: que a polícia prendesse criminosos em vez de cristãos. Isso solucionaria o problema.

Dois corajosos advogados judeus, A. L. Stein, de Montreal, e Sam S. Bard, da Cidade de Quebec, ajudaram representando-nos em muitos casos, em especial antes de eu ser aceito na ordem dos advogados de Quebec, em 1949. Pierre Elliott Trudeau, que mais tarde foi primeiro-ministro do Canadá, escreveu que as Testemunhas de Jeová em Quebec “sofreram zombarias, foram perseguidas e odiadas por nossa inteira sociedade; mas conseguiram, por meios legais, combater a Igreja, o governo, a nação, a polícia e a opinião pública”.

A atitude dos tribunais de Quebec ficou evidente no modo como meu irmão, Joe, foi tratado. O Juiz Jean Mercier o sentenciou à pena máxima de 60 dias de prisão, sob a acusação de perturbar a paz. Daí, perdendo completamente o controle, ele gritou que queria poder enviar Joe para a prisão pelo resto da vida.

Um jornal disse que Mercier dera ordens à polícia de Quebec para que ‘prendesse assim que visse toda pessoa conhecida como Testemunha ou suspeita de ser uma’. Essa atitude só provou que eram verdadeiras as acusações do tratado Quebec’s Burning Hate. As manchetes a seguir são típicas de jornais canadenses fora de Quebec: “A Era do Obscurantismo retorna a Quebec” (The Toronto Star), “Volta da Inquisição” (The Globe and Mail, Toronto) e “O mau cheiro do fascismo” (The Gazette, Glace Bay, Nova Escócia).
Defesa contra a acusação de sedição

Em 1947, ajudei o Sr. Stein em nosso primeiro caso de sedição que foi julgado, o caso de Aimé Boucher. Aimé havia distribuído alguns tratados perto de casa. No julgamento, provamos que Quebec’s Burning Hate não continha falsidades, mas que simplesmente usava uma linguagem forte para reclamar das atrocidades cometidas contra as Testemunhas de Jeová. Mostramos que os que cometeram essas atrocidades nunca haviam sido indiciados. Aimé havia sido condenado apenas por divulgá-las. O argumento da acusação podia ser resumido assim: falar a verdade passara a ser considerado crime.

Os tribunais de Quebec haviam se baseado numa vaga definição de “sedição”, de 350 anos, que sugeria que qualquer um que criticasse o governo poderia ser declarado culpado de crime. Duplessis também se baseara nessa definição para sufocar os que criticavam seu regime. Mas em 1950, a Suprema Corte do Canadá aceitou nossa posição de que, numa sociedade moderna, “sedição” tem de incluir incitação à violência ou à insurreição contra o governo. O tratado Quebec’s Burning Hate não incitava a isso e, portanto, era uma forma legal de exercer a liberdade de expressão. Em resultado dessa única decisão histórica, todos os 123 casos de sedição foram arquivados. Vi de primeira mão como Jeová deu a vitória.

Luta contra a censura

A Cidade de Quebec tinha uma lei municipal que proibia a distribuição de publicações sem permissão do chefe de polícia. Isso era censura direta e, portanto, uma violação da liberdade religiosa. Laurier Saumur, que então servia como superintendente viajante, havia ficado preso durante três meses e enfrentava diversas outras acusações por causa dessa lei.

Em 1947, impetramos uma ação civil em nome do irmão Saumur para impedir que a Cidade de Quebec aplicasse sua lei contra as Testemunhas de Jeová. Os tribunais de Quebec decidiram contra nós e, novamente, apelamos à Suprema Corte do Canadá. Em outubro de 1953, depois de uma audiência de sete dias diante dos nove juízes daquela corte, nosso pedido de um mandado de segurança foi concedido. A corte reconheceu que a distribuição pública de sermões bíblicos impressos é parte fundamental da adoração cristã das Testemunhas de Jeová e que, portanto, de acordo com a constituição não pode ser censurada.
Assim, o caso Boucher determinou que aquilo que as Testemunhas de Jeová diziam era legal; mas a decisão do caso Saumur estabeleceu como e onde elas podiam transmitir essas informações. A vitória no caso Saumur fez com que mais de 1.100 acusações de violação de uma lei municipal fossem retiradas em Quebec. Mais de 500 acusações também foram retiradas em Montreal por total falta de provas. Logo, não havia mais casos para serem julgados em Quebec.

A ofensiva final de Duplessis

Visto que não havia mais leis que pudesse usar contra as Testemunhas de Jeová, no início de janeiro de 1954, Duplessis apresentou uma nova lei (Projeto de Lei N.° 38), que foi descrita pela imprensa como a ‘lei anti-Testemunhas de Jeová’. Ela declarava que, se alguém suspeitasse que outra pessoa pretendia fazer uma declaração “ofensiva ou injuriosa”, poderia fazer queixa sem precisar fornecer qualquer prova. Como procurador-geral, Duplessis podia então conseguir um mandado de segurança proibindo o acusado de fazer qualquer declaração pública. Depois de se aplicar o mandado de segurança contra uma pessoa, todos os membros de sua Igreja também ficavam proibidos de falar. Além disso, todas as Bíblias e publicações religiosas pertencentes àquela Igreja seriam confiscadas e destruídas, e todos os seus locais de adoração seriam fechados até que o caso fosse decidido, o que poderia levar anos.

O Projeto de Lei N.° 38 baseava-se em uma lei preparada no século 15, durante a Inquisição Espanhola de Torquemada. O acusado e seus associados perdiam todos os direitos civis sem que houvesse qualquer prova de terem feito algo errado. A respeito do Projeto de Lei N.° 38, a imprensa noticiou que a polícia da província havia recebido ordens de fechar todos os Salões do Reino das Testemunhas de Jeová e de apreender e destruir suas Bíblias e outras publicações. Devido a essa terrível ameaça, retiramos todas as nossas publicações religiosas da província. Porém, continuamos com nossa obra de pregação pública, mas apenas com um exemplar pessoal da Bíblia.

A lei passou a vigorar em 28 de janeiro de 1954. Em 29 de janeiro, às 9 horas da manhã, eu já estava na porta do tribunal para impetrar uma ação a favor de todas as Testemunhas de Jeová na província de Quebec, buscando um mandado de segurança permanente contra aquela lei antes mesmo de Duplessis poder usá-la. O juiz não concedeu um mandado de segurança temporário porque o Projeto de Lei N.° 38 ainda não havia sido usado. Mas disse que, se o governo tentasse usá-lo, eu poderia voltar e obter proteção. De modo que a ação do juiz teve o mesmo efeito de um mandado de segurança temporário, porque assim que Duplessis tentasse aplicar a lei, seria impedido.

Durante a semana seguinte, esperamos para ver se a polícia tomaria medidas de acordo com essa nova lei. Não aconteceu nada. Para descobrir por quê, fiz um teste. Duas pioneiras, Victoria Dougaluk (mais tarde Steele) e Helen Dougaluk (mais tarde Simcox), foram de casa em casa com publicações em Trois-Rivières, a cidade natal de Duplessis. Novamente, não houve reação. Enquanto as irmãs faziam isso, pedi que Laurier Saumur telefonasse para a polícia da província. Sem se identificar, ele reclamou que as Testemunhas de Jeová estavam pregando e que a polícia não estava fazendo cumprir a nova lei de Duplessis.

Encabulado, o policial encarregado disse: “Sim, sabemos que a lei foi aprovada; mas no dia seguinte as Testemunhas de Jeová conseguiram um mandado de segurança contra nós, de modo que não há nada que possamos fazer.” Imediatamente, trouxemos nossas publicações de volta para a província e nossa obra de pregação continuou sem problemas nos próximos dez anos até que o caso foi julgado pelos tribunais.

Além do mandado de segurança, procuramos fazer também com que o Projeto de Lei N.° 38 fosse declarado inconstitucional. Para provar que essa lei visava apenas as Testemunhas de Jeová, decidimos tentar uma manobra ousada: enviamos ao próprio Duplessis uma intimação, obrigando-o a comparecer a julgamento e apresentar provas. Eu o interroguei durante duas horas e meia. Várias vezes, citei suas declarações públicas de que travaria uma “guerra sem trégua contra as Testemunhas de Jeová” e sua afirmação de que o Projeto de Lei N.° 38 seria o fim das Testemunhas de Jeová em Quebec. Furioso, ele me atacou pessoalmente: “Você é um rapaz muito insolente!”

“Sr. Duplessis”, respondi, “se estivéssemos analisando o caráter das pessoas, eu também teria alguns comentários a fazer a seu respeito. Mas visto que temos um trabalho para terminar, por favor, explique ao tribunal por que o senhor não respondeu a última pergunta”.

Em 1964, apresentei o caso do Projeto de Lei N.° 38 perante a Suprema Corte do Canadá. Ela se negou, porém, a analisar a constitucionalidade dele, visto que nunca havia sido usado. Mas naquela época Duplessis já havia morrido e ninguém mais se importava com o Projeto de Lei N.° 38. Nunca foi usado contra as Testemunhas de Jeová nem contra qualquer outra pessoa.

Pouco antes de sua morte, em 1959, a Suprema Corte do Canadá ordenou que Duplessis pagasse uma indenização ao irmão Roncarelli por ter cancelado ilegalmente a licença dele para a venda de bebidas alcoólicas. Desde aquele tempo, muitas pessoas em Quebec se tornaram bem amigáveis. O número de Testemunhas de Jeová ali aumentou de 300, em 1943, para mais de 33.000 hoje, segundo um censo do governo. As Testemunhas de Jeová são agora alistadas como o quarto maior grupo religioso da província. Não considero essas vitórias jurídicas ou o êxito do ministério das Testemunhas de Jeová como realizações humanas. Para mim, provam que é Jeová quem dá a vitória, porque a batalha é dele e não nossa. — 2 Crônicas 20:15.

Mudanças de situação

Em 1954, casei-me com uma encantadora pioneira da Inglaterra, Margaret Biegel, e ingressamos juntos no serviço de pioneiro. Eu continuei trabalhando em casos a favor de Testemunhas de Jeová no Canadá e nos Estados Unidos e servi como consultor em alguns casos na Europa e na Austrália. Margaret se tornou minha secretária e me deu apoio inestimável durante muitos anos. Em 1984, eu, com Margaret, voltei a morar na congênere do Canadá e ajudei a estabelecer novamente o Departamento Jurídico. Infelizmente, em 1987, Margaret morreu de câncer.

Depois da morte de minha mãe, em 1969, meu irmão, Joe, e sua esposa, Elsie, que haviam recebido treinamento como missionários na nona turma da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia, levaram meu pai para morar com eles e cuidaram dele até sua morte, 16 anos depois. Assim, de modo abnegado, permitiram que eu permanecesse no serviço de tempo integral. Sempre lhes serei grato por isso.

Outras batalhas

No decorrer dos anos, as batalhas jurídicas que as Testemunhas de Jeová tiveram de travar passaram a ser outras. Muitos casos envolveram direitos de propriedade e licenças para Salões do Reino e Salões de Assembléias. Outras eram disputas pela guarda de filhos em que pais não-Testemunhas de Jeová usavam o preconceito religioso para obter a guarda única ou para impedir os pais que eram Testemunhas de partilhar com os filhos suas crenças religiosas e suas práticas benéficas.

Em 1989, uma advogada norte-americana, Linda Manning, veio temporariamente à congênere do Canadá para dar assessoria jurídica. Em novembro daquele ano, nos casamos e desde então servimos alegremente juntos.

Na década de 90, eu e John Burns, um outro advogado da congênere do Canadá, fomos ao Japão para ajudar nossos irmãos cristãos ali a vencer um caso constitucional envolvendo a liberdade de um estudante de não participar nas aulas de artes marciais exigidas por sua escola. Também obtivemos a vitória num caso sobre o direito de um adulto de recusar transfusão de sangue.

Daí, em 1995 e 1996, eu e Linda tivemos o privilégio de passar cinco meses em Cingapura devido à proscrição das Testemunhas de Jeová naquele país e às perseguições resultantes. Defendi 64 homens, mulheres e jovens que haviam sido acusados criminalmente por assistir a reuniões cristãs e possuir Bíblias e publicações religiosas. Não vencemos nenhum desses casos, mas vimos como Jeová fortaleceu seus servos fiéis para perseverar com integridade e alegria.

Feliz de ter participado

Aos 80 anos, fico feliz de ter boa saúde e de poder continuar participando nas batalhas jurídicas do povo de Jeová. Continuo disposto a ir aos tribunais fazer uma defesa a favor do que é certo. Tive o privilégio de ver o número de Testemunhas de Jeová no Canadá aumentar de 4.000, em 1940, para 111.000, atualmente. As pessoas vêm e vão e muitas coisas acontecem, mas Jeová continua a fazer seu povo avançar, cuidando para que prospere espiritualmente.

Há problemas? Sim, mas a Palavra de Jeová nos assegura: “Nenhuma arma que se forjar contra ti será bem sucedida.” (Isaías 54:17) Com base nesses mais de 56 anos de serviço de tempo integral, em que ajudei a “defender e estabelecer legalmente as boas novas”, posso confirmar que a profecia de Isaías é mesmo verdadeira! — Filipenses 1:7.


Aprendi a confiar em Deus

NARRADA POR ELLA TOOM

MORÁVAMOS perto do vilarejo Otepää, no sul da Estônia, a cerca de 60 quilômetros da fronteira com a Rússia. A Segunda Guerra Mundial estava quase acabando em outubro de 1944, poucos meses após minha formatura do segundo grau. Quando os exércitos alemães recuaram diante dos russos, passando pela Estônia, nós e nossos vizinhos — cerca de 20 pessoas — nos escondemos na floresta junto com os animais que criávamos.

Ficamos encurralados em meio à batalha durante dois meses, com bombas caindo por todo lado. Sentávamos e líamos partes da Bíblia, principalmente o livro de Lamentações. Foi a primeira vez na vida que eu li a Bíblia. Certo dia, subi num morro alto, ajoelhei-me e orei: “Quando a guerra acabar, prometo ir à igreja todo domingo.”

Logo, a frente de batalha deslocou-se para o oeste. A Segunda Guerra Mundial finalmente acabou na Europa quando a Alemanha se rendeu, em maio de 1945. Nesse meio tempo, cumpri a promessa de ir à igreja toda semana. Mas havia ali apenas algumas senhoras idosas. Eu tinha vergonha de estar lá. Quando alguém fazia uma visita inesperada em casa, eu escondia a Bíblia embaixo da mesa.

Arrumei emprego como professora da escola local. Nessa época, o regime comunista tinha assumido o controle e o ateísmo predominava. Mesmo assim, recusei-me a fazer parte do partido comunista. Ocupei-me com muitos serviços sociais, tais como organizar danças folclóricas para crianças.

Como conheci as Testemunhas de Jeová

Precisávamos de roupas para as apresentações das crianças e, por isso, em abril de 1945, fui a uma boa costureira chamada Emilie Sannamees. Eu não sabia, mas ela era Testemunha de Jeová e me perguntou: “O que você acha da situação mundial?” Visto que uma conferência de paz estava sendo realizada em San Francisco, EUA, eu disse: “Logo este governo vai acabar, e tenho certeza que o motivo dessa conferência é garantir que isso ocorra.”

Emilie disse que a conferência de paz não produziria nenhum benefício duradouro e ofereceu-se a mostrar na Bíblia por que não. Eu não estava muito interessada em ouvir essa gentil senhora de meia-idade, assim, antes de eu sair, ela me perguntou: “Você sabe onde Deus intencionava que Adão e Eva vivessem?” Como eu não sabia responder, ela simplesmente disse: “Então, pergunte ao seu pai.”

Fiz isso quando cheguei em casa. Ele também não sabia a resposta e disse que não precisávamos nos preocupar em estudar a Bíblia; apenas tínhamos de ter fé. Quando voltei para pegar as roupas, mencionei que meu pai não soube responder à pergunta. Ela e sua irmã pegaram suas Bíblias e leram para mim as instruções de Deus a Adão e Eva — sobre cuidar de seu lar paradísico e viver ali em felicidade para sempre. Elas me mostraram que o propósito de Deus era que Adão e Eva tivessem filhos e expandissem o Paraíso pela Terra inteira. Fiquei fascinada com esse esclarecimento bíblico. — Gênesis 1:28; 2:8, 9, 15; Salmo 37:29; Isaías 45:18; Revelação (Apocalipse) 21:3, 4.

Minha primeira reunião cristã

Visto que eu faria um curso de magistério de três meses em Tartu naquele verão, Emilie me deu o endereço de uma Testemunha de Jeová naquela cidade. Ela também deu para mim o livro Criação, que me impressionou com sua apresentação clara das verdades bíblicas básicas. Assim, fui até aquele endereço em 4 de agosto de 1945.

Visto que ninguém atendia, bati tão alto na porta da casa que um vizinho saiu e me deu um outro endereço — Rua Salme, 56. Quando cheguei lá, perguntei a uma mulher que estava descascando batatas: “Há uma reunião religiosa sendo realizada aqui?” Irritada, ela me mandou embora, dizendo que eu não era bem-vinda. Mas, como insisti, fui convidada a subir as escadas e participar de um estudo da Bíblia em grupo. Logo, houve um intervalo para o almoço e me preparei para ir embora. Mas os outros me incentivaram a ficar.

Durante o intervalo, notei dois jovens muito magros e pálidos sentados perto da janela. Depois eu soube que durante a guerra eles haviam ficado mais de um ano em vários esconderijos subterrâneos para não serem presos. Na sessão da tarde, Friedrich Altpere usou a palavra “Armagedom” num discurso. Visto que eu não conhecia esse termo, depois lhe perguntei sobre isso, e ele me mostrou a palavra na Bíblia. (Revelação 16:16) A explicação me surpreendeu, e ele ficou igualmente surpreso quando viu que aquela informação era novidade para mim.

Comecei a dar-me conta de que a reunião tinha sido preparada apenas para as Testemunhas de Jeová conhecidas e de confiança. Depois fiquei sabendo que aquela era a primeira reunião delas após a guerra! Dali em diante, ficou bem claro para mim a necessidade de confiar em Deus. (Provérbios 3:5, 6) Um ano depois, em agosto de 1946, fui batizada aos 20 anos em símbolo de minha dedicação ao verdadeiro Deus, Jeová.

Oposição da família

O governo insistia que o ateísmo fosse ensinado na escola, e isso foi um teste para a minha consciência treinada pela Bíblia. Eu queria mudar de profissão. Quando falei isso para minha mãe, ela ficou furiosa e arrancou alguns de meus cabelos. Decidi ir embora de casa, mas meu pai me incentivou a perseverar, dizendo que me ajudaria.

Meu irmão Ants também passou a opor-se à minha decisão. Mas, certo dia, ele me pediu algumas publicações, leu-as e gostou muito. Minha mãe ficou histérica. Ants até começou a falar sobre Deus a outros na escola, mas parou de se associar com as Testemunhas de Jeová quando surgiu perseguição. Pouco depois, ele sofreu uma lesão na cabeça em um acidente num mergulho. Ele ficou inerte numa maca, mas lúcido. “Jeová vai me perdoar?”, perguntou. Eu disse que sim. Ants morreu poucos dias depois, com apenas 17 anos.

Deixei meu emprego na escola em setembro de 1947. Minha mãe continuou muito fria comigo. Quando ela jogou todas as minhas roupas fora de casa, resolvi ir embora e fui acolhida pelas irmãs Sannamees. Elas me lembravam que Jeová nunca abandona seus servos, e isso foi de muito encorajamento para mim.

Desafios na Estônia após-guerra

As irmãs Sannamees me deixaram trabalhar com elas costurando para famílias de fazendeiros. Muitas vezes conseguíamos transmitir-lhes verdades bíblicas. Foi uma época boa, não só porque aprendi a costurar, mas também porque ganhei mais experiência no ministério cristão. Além de costurar, passei a dar aulas particulares de matemática. No entanto, as autoridades começaram a prender as Testemunhas de Jeová em 1948.

Em outubro do ano seguinte, eu estava trabalhando num sítio quando me disseram que as autoridades tinham ido à casa das irmãs Sannamees para me prender. Quando fui pedir ajuda no sítio do irmão Hugo Susi, fiquei sabendo que ele acabara de ser preso. Uma senhora para quem eu tinha costurado me convidou a morar com ela. Depois me mudei de sítio em sítio, costurando e continuando a obra de pregação.
No inverno, o Comitê de Segurança do Estado (KGB) me encontrou em Tartu, na casa de Linda Mettig, uma zelosa irmã que era um pouco mais velha do que eu.  Eles me prenderam e me levaram para interrogatório. Senti-me humilhada ao ser forçada a tirar toda a roupa na frente de jovens policiais que me fitavam com desprezo. Mas, depois de orar a Jeová, senti paz e serenidade.

Fui posta numa cela minúscula, onde não podia nem me deitar. Eu só saía para ser interrogada. Os policiais diziam: “Não estamos pedindo para você negar a existência de Deus. Apenas pare com essa pregação estúpida! Você pode ter um futuro promissor.” Eles ameaçavam: “Você quer viver? Ou quer morrer com seu Deus nos campos de trabalho da Sibéria?”

Não permitiram que eu dormisse por três dias durante os constantes interrogatórios. Meditar em princípios bíblicos me ajudou a perseverar. Finalmente, um policial tentou me convencer a assinar um documento declarando que eu ia parar de pregar. Respondi: “Já pensei muito sobre isso e eu preferiria viver na prisão mantendo minha relação com Deus intacta do que ser livre e perder a aprovação dele.” Ao ouvir isso, o policial gritou: “Sua tola! Todos vocês serão presos e enviados para a Sibéria!”

Liberdade inesperada

Para minha surpresa, pouco antes da meia-noite, os policiais mandaram eu pegar minhas coisas e ir embora. Como sabia que seria seguida, não fui para a casa dos irmãos, pois acabaria entregando-os. À medida que eu andava pelas ruas, três homens me seguiram mesmo. Orando a Jeová pedindo orientação, virei a esquina numa rua escura e corri rapidamente para um parque. Deitei-me no chão e espalhei folhas sobre mim. Dava para ouvir o barulho dos homens andando e ver os fachos das lanternas.

Passaram-se várias horas e comecei a não sentir mais o meu corpo por causa do frio. Finalmente, saí andando descalça pelas ruas de pedra, para não fazer barulho. Deixei a cidade e andei pela vala ao longo da estrada. Quando carros se aproximavam, eu me deitava no chão. Cheguei à casa de Jüri e Meeta Toomel, não muito longe de Tartu, às cinco horas da manhã.

Meeta imediatamente esquentou a sauna para eu me aquecer. No dia seguinte, ela foi a Tartu e falou com Linda Mettig. Linda me incentivou: “Vamos começar a pregar agora e espalhar as boas novas por toda a Estônia.” Após mudar minha aparência com um corte de cabelo, um pouco de maquiagem e óculos, começamos a pregar. Nos meses seguintes, viajamos grandes distâncias de bicicleta. Ao longo do caminho, encorajamos os irmãos que moravam nos sítios.

Um congresso foi preparado para 24 de julho de 1950. Seria realizado perto de Otepää, num enorme celeiro de um estudante da Bíblia. Quando ficamos sabendo que os planos para o congresso tinham sido descobertos pela KGB, conseguimos avisar a maioria dos irmãos que estavam a caminho. Preparou-se um outro local para o dia seguinte e havia cerca de 115 presentes. Todos voltaram para casa cheios de alegria e mais decididos do que nunca a manter a lealdade diante de testes.

Depois disso, Linda e eu continuamos a pregar e a encorajar nossos irmãos na fé. Mais tarde naquele ano, participamos na colheita de batata e transmitimos a mensagem do Reino às pessoas com quem trabalhávamos. O dono de um sítio até parou e nos ouviu durante uma hora, dizendo: “Não é todo dia que se ouvem notícias desse tipo!”

Linda e eu voltamos para Tartu, onde soubemos que mais Testemunhas de Jeová tinham sido presas, incluindo a mãe de Linda. A maioria dos nossos amigos agora estavam presos, as irmãs Sannamees inclusive. Visto que sabíamos que a KGB estava nos procurando, conseguimos duas bicicletas e continuamos a pregar fora de Tartu. Certa noite, a KGB me encontrou na casa de Alma Vardja, uma irmã recém-batizada. Olhando meu passaporte, um dos policiais disse: “Ella! Estávamos procurando você por toda a parte!” Isso aconteceu em 27 de dezembro de 1950.

Presa e mais tarde transferida para a Sibéria

Alma e eu calmamente embalamos algumas coisas e nos sentamos para comer. Os agentes da KGB ficaram impressionados e disseram: “Vocês nem choram? Simplesmente sentam aí e comem?” Respondemos: “Estamos indo para nossa nova designação e não sabemos quando será a próxima refeição.” Levei comigo um cobertor com o qual mais tarde fiz meias e luvas. Após meses na prisão, fui exilada em agosto de 1951 com outras Testemunhas de Jeová da Estônia.

Fomos enviados de trem da Estônia para Leningrado (hoje São Petersburgo), Rússia. De lá, fomos para o terrível campo de trabalhos forçados em Vorkuta, Komi, acima do círculo polar ártico. Havia três Testemunhas de Jeová no nosso grupo. Eu tinha estudado russo na escola e, desde a minha prisão, comecei a praticar o idioma. Assim, eu sabia falar bem o russo quando chegamos ao campo.

Em Vorkuta, conhecemos uma jovem ucraniana que tinha se tornado Testemunha de Jeová num campo de concentração nazista na Polônia. Em 1945, ela e outras 14 Testemunhas foram postas num navio que os alemães pretendiam afundar no mar Báltico. Mas o navio conseguiu chegar em segurança à Dinamarca. Mais tarde, após o seu retorno para a Rússia, ela foi presa por causa da pregação e enviada a Vorkuta, tornando-se uma fonte de encorajamento para nós.

Também conhecemos duas mulheres que perguntaram em ucraniano: “Quem aqui é Testemunha de Jeová?” Percebemos imediatamente que elas eram nossas irmãs cristãs! Elas nos encorajaram e cuidaram de nós. Outros prisioneiros chegaram a dizer que era como se tivéssemos uma família nos esperando na chegada.
Transferida para os campos mordovianos

Em dezembro de 1951, um exame médico diagnosticou que eu tinha problemas de tireóide e fui transferida quase 1.500 quilômetros ao sudoeste para o enorme complexo de prisões mordoviano, a cerca de 400 quilômetros a sudeste de Moscou. Durante os anos seguintes, conheci irmãs alemãs, húngaras, polonesas e ucranianas nos campos femininos em que fiquei presa. Também conheci Maimu, uma presa política da Estônia.

Ela teve uma filha quando estava presa na Estônia, e uma guarda bondosa deu o bebê para a mãe de Maimu. Estudamos a Bíblia com Maimu no campo mordoviano e ela aceitou o que estava aprendendo. Escreveu para sua mãe, que também aceitou as verdades bíblicas e as ensinou a Karin, filhinha de Maimu. Seis anos mais tarde, Maimu foi solta e reencontrou a filha. Quando Karin cresceu, casou-se com um irmão cristão. Os dois já servem há 11 anos na filial das Testemunhas de Jeová em Tallinn, Estônia.

Um campo de prisão no enorme complexo mordoviano tinha o que era conhecido como a jaula. Tratava-se de um pequeno alojamento bem vigiado dentro do campo murado. Eu e outras seis Testemunhas de Jeová fomos mandadas para lá por causa de nossas atividades cristãs. Mesmo ali dentro, fazíamos à mão cópias em miniatura de artigos de A Sentinela e os distribuíamos secretamente a outros nos campos vizinhos. Um dos nossos métodos era abrir uma barra de sabão ao meio, fazer um buraco, colocar o artigo dentro e fechar a barra de novo.

Durante os anos que passei nos campos mordovianos, pude ajudar mais de dez pessoas a se tornar adoradores de Deus. Finalmente, em 4 de maio de 1956, disseram-me: “Você está livre para ir e acreditar em seu Deus, Jeová.” Naquele mesmo mês, viajei de volta para a Estônia.

Em casa já por quase 50 anos

Eu não tinha emprego, dinheiro nem onde morar. Mas, poucos dias depois de chegar, conheci uma senhora que demonstrou interesse nos ensinos da Bíblia. Ela permitiu que eu morasse um tempo com ela e o marido em seu apartamento de um quarto. Comprei lã com dinheiro emprestado e fiz suéteres, que vendi no mercado. Depois me ofereceram emprego no Hospital do Câncer em Tartu, onde fiz vários tipos de serviço nos sete anos seguintes. Nesse meio tempo, Lembit Toom também retornou do exílio na Sibéria e nos casamos em novembro de 1957.

A KGB mantinha vigilância sobre nós e éramos constantemente hostilizados, visto que a obra de pregação ainda estava proscrita. Mesmo assim, fazíamos todo o possível para transmitir nossas crenças. Lembit contou sobre essa fase da nossa vida na Despertai! de 22 de fevereiro de 1999. Do fim da década de 50 até a década de 70, as Testemunhas de Jeová exiladas continuaram a voltar para casa. Por volta do fim da década de 80, havia mais de 700 Testemunhas de Jeová na Estônia. Nossas atividades cristãs foram legalizadas em 1991 e, desde então, o número de Testemunhas de Jeová aumentou para mais de 4.100!
Já faz mais de 60 anos que assisti àquela primeira reunião secreta das Testemunhas de Jeová na Estônia após a Segunda Guerra Mundial. Desde então, minha decisão tem sido a de seguir a admoestação bíblica: “Confia em Jeová e faze o bem.” Aprendi que fazer isso resulta em recebermos ‘os pedidos do nosso coração’. — Salmo 37:3, 4.


Um desses jovens era Lembit Toom, cuja biografia aparece na Despertai! de 22 de fevereiro de 1999.
Para mais informações sobre esse congresso, veja a Despertai! de 22 de fevereiro de 1999, páginas 12-13.
A maioria das Testemunhas de Jeová da Estônia, no entanto, foram exiladas no começo de abril de 1951. Veja a Despertai! de 22 de abril de 2001, páginas 6-8 e o vídeo As Testemunhas de Jeová na União Soviética — Fiéis sob Provas.


Aprendi a amar a Deus desde pequeno

NARRADA POR ANATOLY MELNIK

Muitos me chamam de vovô — termo carinhoso que mexe muito comigo porque me faz lembrar de meu avô, por quem eu tinha uma afeição toda especial e até hoje sinto muita gratidão. Vou contar um pouco da história do vovô e como ele e vovó foram pessoas marcantes na vida dos familiares e de muitos outros.
NASCI no vilarejo de Hlina, no norte da atual Moldávia. Na década de 20, peregrinos (ministros viajantes) atravessaram a fronteira da Romênia e vieram à nossa bela região montanhosa para pregar as boas novas da Bíblia. Meus avós maternos imediatamente aceitaram a mensagem e, em 1927, tornaram-se Estudantes da Bíblia (nome das Testemunhas de Jeová na época). Em 1939, quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, já havia uma congregação das Testemunhas de Jeová no nosso vilarejo.

Em 1936, ano em que eu nasci, todos os meus familiares e parentes eram Testemunhas de Jeová, com exceção de papai que ainda freqüentava a Igreja Ortodoxa. Foi durante a Segunda Guerra Mundial que ele começou a refletir sobre o objetivo da vida e por fim dedicou-se ao Criador, Jeová Deus, simbolizando isso pelo batismo em água. Vovô teve uma participação muito importante na espiritualidade da família. Ele tinha grande estima pela Bíblia e sabia centenas de versículos de cor. Tinha facilidade de direcionar qualquer conversa para a Bíblia.

Eu gostava de sentar no colo do vovô para ouvi-lo contar histórias bíblicas. Incutiu em mim o amor a Deus, o que me tornou muito grato a ele. Aos 8 anos saí na pregação pela primeira vez, com vovô. Mostramos na Bíblia às pessoas do vilarejo quem é Jeová e como se achegar a ele.

Opressão comunista

Em 1947, as autoridades começaram a perseguir as Testemunhas de Jeová na Moldávia, instigadas pela ideologia comunista e pela Igreja Ortodoxa. Agentes da polícia secreta (mais tarde conhecida como KGB) e a polícia local vinham em casa e indagavam sobre a liderança da obra de pregação, a procedência das publicações e o local onde nos reuníamos para o culto. Diziam que iam parar a obra das Testemunhas de Jeová que, segundo eles, “impedia o desenvolvimento do comunismo no país”.

Nessa época, papai, um homem bem-instruído, já tinha grande estima pela verdade da Bíblia. Tanto ele como vovô eram homens destemidos e afetuosos, interessados no bem-estar dos irmãos na fé e, quando interrogados, sabiam como responder para não incriminá-los. Mamãe também sabia adotar uma postura bem calma.

Em 1948, papai foi detido e sentenciado a sete anos num presídio de segurança máxima e a dois anos no exílio. No fim, ele foi enviado à região de Magadan, no extremo nordeste da Rússia, bem mais de 7 mil quilômetros de casa. Nunca nos disseram quais eram as acusações contra ele. Não o vimos por nove anos. Foi difícil viver sem a presença de meu pai, mas vovô me deu muita força e apoio.

Exílio

Na noite de 6 de junho de 1949, dois soldados e um policial invadiram nossa casa. Deram-nos duas horas para nos aprontarmos e entrarmos no veículo. Disseram que seríamos exilados para sempre. Não deram nenhuma explicação. Foi assim que eu, mamãe, vovô, vovó e outros concrentes fomos deportados para a Sibéria. Eu tinha apenas 13 anos. Passadas algumas semanas, lá estávamos nós nos pântanos da taiga, em meio a florestas cerradas. Que diferença da região lá da minha terra que eu tanto amava! Havia ocasiões em que desatávamos no choro. Mesmo assim confiávamos em Jeová, certos de que nunca nos abandonaria.
O vilarejo consistia em dez cabanas de toras. Outras Testemunhas foram deportadas para vários vilarejos distribuídos pela taiga. As autoridades, visando assustar os habitantes e predispô-los contra as Testemunhas, diziam que éramos canibais. Não demorou muito para o povo descobrir que isso era mentira e que não precisavam ter medo de nós.

Nos primeiros dois meses nos colocaram numa cabana velha. Assim, antes da chegada do inverno rigoroso foi preciso construir uma moradia mais adequada. Com a ajuda de meus avós, mamãe e eu construímos um abrigo bem rústico, metade acima da superfície e metade subterrâneo, onde moramos por mais de três anos. Era proibido sair do vilarejo sem autorização e esta nunca era concedida.

Com o tempo permitiram que eu fosse à escola. Como tinha conceitos religiosos diferentes, os professores e alunos me faziam muitas perguntas. Chegando em casa, contava ao vovô como havia explicado as nossas crenças, e os olhos dele brilhavam de alegria.

Mais liberdade

A vida melhorou um pouco após a morte do ditador Stalin em 1953. Recebemos permissão para ir a outros vilarejos, que ficavam a uns 30 quilômetros de caminhada, às vezes com neve na altura do joelho e em temperaturas que chegavam a 40 °C negativos. Mas era bom porque podíamos rever outras Testemunhas deportadas e assistir às reuniões com elas. Para não atrair atenção, realizávamos as reuniões em pequenos grupos. No dia seguinte, fazíamos a longa caminhada de volta para casa. Nosso lanche era um pepino em conserva e alguns torrões de açúcar. Mesmo assim éramos muito felizes, como Davi da antiguidade. — Salmo 122:1.

Em 1955, fui batizado em símbolo da minha dedicação a Jeová. Pouco tempo antes, na congregação duma cidade vizinha eu havia conhecido Lidiya, uma moça recatada de cabelos escuros. A família dela, assim como a minha, era de Testemunhas exiladas da Moldávia. Ela tinha uma voz linda e cantava de cor quase todos os 337 cânticos do cancioneiro da época. Isso me impressionou muito visto que eu também valorizava muito os nossos cânticos. Em 1956, resolvemos nos casar.

Eu escrevi para papai, na época exilado em Magadan, comunicando a nossa decisão. Mas não quisemos casar sem a bênção dele e por isso esperamos até ele ser libertado, o que aconteceu pouco tempo depois. Ele veio para o vilarejo onde a família estava exilada e nos contou como Deus ajudou tanto ele como outros concrentes a sobreviver às terríveis condições nos campos de trabalhos forçados — relatos que fortaleceram nossa fé.

Pouco tempo depois da volta de papai, aconteceu um acidente terrível com mamãe. Ela estava preparando o óleo que usávamos nas tintas e vernizes, e de alguma forma o caldeirão de óleo fervente entornou, derramando muito óleo sobre ela. Ela foi hospitalizada, mas morreu. Ficamos arrasados com a perda. Passado algum tempo, papai, mais conformado, casou-se com Tatyana, uma Testemunha de um vilarejo vizinho.

Expandindo o ministério

Em 1958, eu e Lidiya nos mudamos do vilarejo de Kizak para um bem maior, Lebyaie, a cerca de 100 quilômetros. Havíamos lido sobre cristãos em outros países que pregavam de casa em casa. Tentamos fazer o mesmo em Lebyaie. As revistas A Sentinela e Despertai! estavam proscritas, mas nós recebíamos exemplares em russo e moldávio, introduzidos secretamente no país. Logo fomos informados de que receberíamos revistas apenas em russo, o que nos obrigou a estudar bastante esse idioma para entendê-lo melhor. Até hoje me lembro dos títulos dos artigos e também de alguns trechos.

Para o nosso sustento, Lidiya trabalhava num silo-elevador [elevador de cereais] e eu descarregava madeira das carroças. Eram serviços exaustivos e pouco remunerados. As Testemunhas de Jeová eram reconhecidas como trabalhadores conscienciosos, mas não recebiam benefícios nem bônus. As autoridades diziam: “As Testemunhas de Jeová não se enquadram na sociedade comunista.” Mas nós nos alegrávamos de que as palavras de Jesus se cumpriam também em nosso caso: “Não fazem parte do mundo, assim como eu não faço parte do mundo.” — João 17:16.

Novos desafios

Em 1959, nasceu nossa filha Valentina. Pouco tempo depois, começou uma nova onda de perseguição. A Encyclopædia Britannica diz: “Uma nova campanha anti-religiosa foi promovida pelo primeiro-ministro Nikita Khruschev entre 1959-64.” Membros da segurança do Estado nos contaram que, com isso, o governo soviético visava eliminar todas as religiões, especialmente as Testemunhas de Jeová.

Quando Valentina estava com quase um ano fui convocado para o exército. Como não atendi à convocação por razões de neutralidade, fui sentenciado a cinco anos de prisão. Numa das vezes que Lidiya veio me visitar, um coronel da KGB disse-lhe: “Segundo notificação do Kremlin, dentro de dois anos não haverá mais Testemunhas de Jeová na União Soviética.” E ele avisou: “Renuncie à sua fé, senão será presa.” O coronel achava que com essas ameaças as mulheres ficariam quietas, e dizia: “São um bando de fracotes.”

Não demorou muito, a maioria dos homens Testemunhas estava em prisões e em campos de trabalhos forçados. Mas as destemidas mulheres cristãs, inclusive Lidiya, enfrentaram muitas provações para poder continuar com a pregação e introduzir publicações secretamente nas prisões e nos campos de trabalhos forçados. Lidiya sofreu também muito assédio sexual de homens que sabiam que eu estava preso. Além disso diziam a ela que eu nunca seria libertado. Mas eu fui libertado!

Liberdade e mudança para o Casaquistão

Meu processo foi reaberto em 1963 e, após três anos de encarceramento, fui libertado. Tentamos conseguir uma autorização de residência em qualquer lugar que fosse, mas era impossível e por isso não consegui achar emprego. Uma lei do Estado declarava: “Sem autorização de residência, não há emprego.” Oramos fervorosamente a Jeová pedindo ajuda. Depois disso resolvemos nos mudar para Petropavl, no norte do Casaquistão. Mas as autoridades locais já sabiam da nossa chegada e não permitiram que morássemos nem trabalhássemos ali. Ao todo foram umas 50 Testemunhas de Jeová na cidade que passaram por essa perseguição.

Junto com outro casal de Testemunhas de Jeová mudamo-nos mais para o sul, para a pequena cidade de Shchuchinsk, onde não havia Testemunhas de Jeová e as autoridades não conheciam a nossa obra de pregação. Durante uma semana, eu e Ivan, os dois chefes de família, saímos à procura de trabalho enquanto nossas esposas esperavam na estação ferroviária, onde dormíamos à noite. Finalmente conseguimos um emprego na vidraria. Alugamos um quartinho para nossas famílias com espaço para apenas duas camas, mas estávamos contentes.

Eu e Ivan nos dedicamos ao trabalho, e nossos patrões estavam muito satisfeitos. Quando fui novamente convocado para o serviço militar, o gerente da vidraria já estava a par da minha recusa devido à minha consciência treinada na Bíblia. Por incrível que pareça, ele mesmo contatou o responsável do quartel e disse-lhe que eu e Ivan éramos trabalhadores experientes, e que a vidraria ia fechar se nós saíssemos. Assim, permitiu-se que ficássemos.

Criar filhos e servir ao próximo

Nossa segunda filha, Lilya, nasceu em 1966. Um ano mais tarde, mudamo-nos para Belyye Vody, no sul do Casaquistão, perto da fronteira com o Usbequistão, onde havia um pequeno grupo de Testemunhas. Logo formou-se uma congregação e fui designado superintendente presidente. Em 1969, tivemos um filho, Oleg, e dois anos mais tarde, Natasha, a caçula. Eu e Lidiya sempre tínhamos bem em mente que os filhos são uma herança da parte de Jeová. (Salmo 127:3) Conversávamos muito para decidir o que era preciso fazer para criá-los de modo a amarem a Jeová.

Mesmo no início da década de 70, a maioria dos homens Testemunhas ainda estava nos campos de trabalhos forçados. Muitas congregações careciam de supervisão e orientação maduras. Assim, enquanto grande parte da responsabilidade de criar os filhos recaía sobre Lidiya, tendo de atuar muitas vezes como mãe e pai, eu servia como superintendente viajante. Visitava congregações no Casaquistão, assim como nas vizinhas repúblicas soviéticas de Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão. Ao mesmo tempo, tinha de trabalhar para sustentar a família, e Lidiya e as crianças cooperavam.

Às vezes, eu ficava fora de casa por semanas, mas tentava ser um pai amoroso ajudando as crianças a aumentar em espiritualidade. Eu e Lidiya orávamos fervorosamente para que Jeová ajudasse nossos filhos, e conversávamos com eles sobre como vencer o medo do homem e cultivar um relacionamento achegado com Deus. Se não fosse pelo apoio altruísta da minha querida esposa, eu não teria conseguido cuidar dos deveres como superintendente viajante. Lidiya e as outras irmãs não eram nem de longe “um bando de fracotes”, como o oficial do exército havia dito. Elas eram fortes — verdadeiras gigantes espirituais! — Filipenses 4:13.

Em 1988, com as crianças já crescidas, fui designado superintendente viajante regular. Meu circuito abrangia quase todos os países da Ásia Central. Depois da legalização da obra de pregação das Testemunhas de Jeová na ex-União Soviética, em 1991, outros homens maduros habilitados começaram a servir nas repúblicas asiáticas da ex-União Soviética. Hoje há 14 superintendentes viajantes servindo nesses países, onde mais de 50 mil pessoas assistiram à Comemoração da morte de Cristo no ano passado.

Convite inesperado

No início de 1998, fiquei surpreso ao receber um telefonema da congênere das Testemunhas de Jeová na Rússia. “Anatoly, você e Lidiya já pensaram em ingressar no serviço de tempo integral?”, me perguntaram. Claro que tínhamos pensado nesse privilégio para os nossos filhos. E o nosso filho, Oleg, estava servindo na congênere da Rússia havia cerca de cinco anos.

Quando conversei com Lidiya sobre o convite, ela respondeu: “Mas e a nossa casa, nossa horta e nossos pertences?” Oramos e trocamos idéias a respeito, e resolvemos nos colocar à disposição. Acabamos sendo convidados para servir no centro religioso das Testemunhas de Jeová em Issyk, Casaquistão, perto da cidade grande de Alma-Ata. Nesse centro se faz a tradução das publicações bíblicas para os idiomas locais e da região.

Nossa família hoje

Como somos gratos a Deus pela ajuda que nos deu para saber ensinar aos nossos filhos a verdade da Bíblia! A filha mais velha, Valentina, casou-se e mudou-se com o marido para Ingelheim, Alemanha, em 1993. Eles têm três filhos, todos Testemunhas de Jeová batizados.

Lilya, a segunda filha, também tem filhos. Ela e o marido, ancião na congregação de Belyye Vody, estão criando os dois filhos para que amem a Deus. Oleg casou-se com Natasha, uma cristã de Moscou, e servem juntos na congênere da Rússia, perto de São Petersburgo. Em 1995, a caçula, Natasha, casou-se e serve junto com o marido numa congregação russa na Alemanha.

De vez em quando reunimos toda a família. Nossos filhos contam para seus filhos como “mamãe” e “papai” ouviram a Jeová e criaram os filhos para amar e servir o Deus verdadeiro, Jeová. Eu noto que essas conversas ajudam a aumentar a espiritualidade de nossos netos. O mais novo se parece comigo quando eu tinha a mesma idade. Às vezes ele senta no meu colo e pede que lhe conte uma história da Bíblia. Meus olhos se enchem de lágrimas quando me lembro com carinho como eu costumava sentar no colo do vovô e como ele me ajudou a amar e servir nosso Grandioso Criador.


‘Antes de morrer, quero servir a Deus’

A HISTÓRIA DE MAMIE FREE

EM 1990, irrompeu uma guerra civil na Libéria. Mamie, uma menina de 12 anos do grupo étnico krahn, morava na capital, Monróvia. À medida que o conflito se intensificava, ela e sua família ficaram sem poder sair de casa. Mamie conta: “Ouvimos uma explosão perto da porta. Uma bomba havia atingido e incendiado a casa do vizinho. As chamas passaram para nossa casa, que também pegou fogo.” Em meio à luta intensa, Mamie, sua mãe e seu tio mais novo fugiram.

“De repente, algo me atingiu”, lembra Mamie.

“Então minha mãe perguntou: ‘O que aconteceu?’”

Eu respondi: “Alguma coisa me atingiu! Acho que foi uma bala.”

Mamie caiu no chão sentindo muita dor e orou: “Por favor, Deus, ouça-me. Acho que estou morrendo, mas quero servi-lo antes de morrer.” Daí, ela desmaiou.

Os vizinhos queriam enterrar Mamie numa praia ali perto, pois achavam que ela estava morta. Mas sua mãe insistiu que ela fosse levada para o hospital da localidade. Lamentavelmente, o hospital não tinha condições de atender o grande número de feridos. O tio de Mamie, que também tinha sido ferido, morreu naquela noite. Ela sobreviveu, mas ficou paralisada da cintura para baixo.

Mamie continuou a ter hemorragia interna e a sentir muita dor. Quatro meses depois, os médicos finalmente tiraram um raio X para localizar a bala, que estava alojada entre o coração e os pulmões. Uma cirurgia seria arriscada, por isso a mãe de Mamie a levou a um ervanário tradicional. “Ele me cortou com uma navalha”, lembra-se Mamie, “depois colocou a boca na ferida e tentou sugar a bala. ‘Aqui está ela’, disse ele, tirando uma bala da boca. Nós o pagamos e fomos embora”.

Mas o homem havia mentido, porque outros raios X mostraram que a bala ainda estava lá. Então, Mamie e sua mãe voltaram ao ervanário, que as convenceu de que levaria nove meses até os raios X acusarem que a bala havia sido removida. Elas voltaram para casa e esperaram pacientemente. Nesse meio tempo, Mamie tomou vários remédios para agüentar a dor. Depois de nove meses foram tirados mais raios X, e a bala ainda estava no mesmo lugar. O ervanário fugiu.

Já fazia então 18 meses que a bala estava no corpo de Mamie. Uma parente a levou a uma curandeira que, em vez de ajudar, disse que Mamie, ou sua mãe, morreria num certo dia. Mamie tinha então 13 anos. Ela diz: “Eu chorava sem parar, mas quando chegou o dia marcado, ninguém morreu.”

Um tio de Mamie levou-a então a um líder religioso que afirmava ter tido uma visão indicando que a paralisia dela havia sido causada por um feitiço, não por uma bala. Ele prometeu a Mamie que, se ela seguisse os rituais que ele iria prescrever, ela andaria de novo em uma semana. Mamie explica: “Tomei muitos banhos santos com água do mar, jejuei e rolei no chão toda noite à meia-noite, o que deve ter somado muitas horas. Mas todos esses esforços foram em vão, e meu estado de saúde continuou o mesmo.”

Com o tempo, porém, mais centros médicos passaram a funcionar, e Mamie pôde finalmente retirar a bala. Ela havia sentido dores constantes por mais de dois anos. Ela lembra: “Depois da cirurgia quase não sentia dor, e ficou mais fácil respirar. Embora continuasse parcialmente paralisada, eu conseguia ficar de pé com a ajuda de um andador.”

Mamie conhece as Testemunhas de Jeová

Poucas semanas depois da cirurgia, a mãe de Mamie conheceu duas Testemunhas de Jeová. Sabendo que a filha gostava de ler a Bíblia, ela convidou as Testemunhas para irem à sua casa. Mamie aceitou imediatamente um estudo bíblico. Mas, depois de vários meses, ela voltou ao hospital e perdeu contato com as Testemunhas.

Ainda assim, Mamie continuou querendo aprender mais sobre a Bíblia. Por isso, quando um líder religioso de uma igreja ofereceu ajuda, ela aceitou. Na escola dominical, um dos presentes perguntou ao professor: “Jesus é igual a Deus?”

O professor disse: “Sim. Eles são iguais, mas não exatamente iguais.”

‘Não exatamente iguais?’ pensou Mamie. ‘Isso não faz sentido. Alguma coisa está errada.’ Insatisfeita por não estar aprendendo verdades bíblicas, Mamie por fim parou de se associar com a igreja.

Em 1996, a violência irrompeu novamente na Monróvia. Mamie perdeu mais dois familiares, e a sua casa foi incendiada pela segunda vez. Poucos meses depois, duas Testemunhas a encontraram enquanto trabalhavam no ministério de casa em casa. Mamie reiniciou seu estudo da Bíblia. Quando assistiu à primeira reunião, ficou surpresa ao ver que todos — inclusive os anciãos da congregação — ajudavam a limpar o Salão do Reino. Mais tarde naquele ano, ela se emocionou ao assistir a um dos Congressos “Mensageiros da Paz Divina”, a primeira grande reunião das Testemunhas de Jeová a que ela já estivera presente.

“Fiquei muito impressionada”, diz Mamie. “As Testemunhas tinham genuíno amor umas pelas outras, mesmo sendo de tribos diferentes. E tudo estava muito bem organizado.”

Realiza o desejo de servir a Deus

Em 1998, outro conflito obrigou Mamie e sua mãe a fugir para o país vizinho, Côte d’Ivoire (Costa do Marfim), onde passaram a morar no campo de refugiados Peace Town com outros 6 mil liberianos. Mamie continuou estudando a Bíblia com as Testemunhas e fez rápido progresso. Logo ela queria falar a outros sobre sua fé. Para que Mamie pudesse participar no ministério público, seus irmãos cristãos a ajudavam empurrando sua cadeira de rodas. Dessa forma, ela pôde dar um excelente testemunho a muitos outros refugiados.

Mamie assistia a todas as reuniões, apesar de suas limitações físicas dificultarem sua ida até o Salão do Reino, que ficava a 6 quilômetros de onde morava. No dia 14 de maio de 2000 ela viajou mais de 190 quilômetros para assistir a uma assembléia especial e simbolizar sua dedicação a Deus por meio do batismo em água. (Mateus 28:19, 20) Muitos presentes tinham lágrimas nos olhos ao ver Mamie sendo carregada até um riacho, onde foi batizada. Seu rosto radiava alegria quando foi levantada da água.

Mamie atualmente mora num campo de refugiados em Gana e seu alvo é ser pioneira regular, ou evangelizadora de tempo integral. Sua mãe também começou a estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová e já está falando a outros sobre o que aprendeu. Ambas aguardam ansiosamente o tempo em que se cumprirá o que foi prometido na Palavra de Deus: “O coxo estará escalando como o veado e a língua do mudo gritará de júbilo.” — Isaías 35:5-7.


Altos e baixos do ciclismo

ESFORÇANDO-ME ofegante, pedalando sem realmente sentir a fadiga, eu tinha certeza de que valia a pena. Depois duma subida de 25 quilômetros, no pico do desfiladeiro do Grande São Bernardo, entre a Suíça e a Itália, eu estava na frente. Meu treinador, no carro, indicou que eu tinha alguns minutos de vantagem. Já me via vencendo a etapa e até vestindo a camiseta amarela de malha do líder.

Na frente de motocicletas e carros, disparei na descida a uma velocidade imprudente. A meio caminho, entrei numa das curvas em alta velocidade. A roda traseira derrapou, e fui jogado para fora da estrada. Cheguei dolorosamente ao fim da etapa, mas não recebi a camiseta amarela de malha e a glória. Não venci a Tour de l’Avenir, de 1966.

Como minha paixão cresceu

Nasci na Bretanha, no fim da Segunda Guerra Mundial. O ciclismo é muito popular na França ocidental, região que já produziu muitos campeões. Quando menino, eu assistia às corridas locais e nunca perdia a Volta da França na televisão. Ao ver os ciclistas subirem com muito esforço impressionantes desfiladeiros de montanha e descerem velozmente as mais íngremes encostas, eu achava que pareciam deuses.

Aos 17 anos, decidi tentar. Com a ajuda de um revendedor de bicicletas, comprei de segunda mão minha primeira bicicleta de corrida. Meu programa era cheio: treinamento todo domingo de manhã e todos os outros dias da semana antes e depois do trabalho. Apenas dois meses depois, com o coração batendo forte, ganhei a posição dianteira na minha primeira corrida. Teria vencido se o grupo não me tivesse alcançado apenas 10 metros antes da linha de chegada! Durante o restante daquele ano, cheguei entre os primeiros 15 em quase todas as corridas.

Minha temporada de ciclismo em 1962 foi curta. Após três meses de competições e várias vitórias, fui convocado para prestar um ano e meio de serviço militar na Argélia. Depois de retornar à França, passei 1965 readaptando-me ao ciclismo. Mas, na temporada seguinte, fiquei firmemente decidido a sentir a alegria de novamente receber o buquê de flores do vencedor.

De março de 1966 em diante, foi uma vitória após outra. Sempre que eu chegava em primeiro ou segundo lugar numa corrida, ganhava pontos que por fim me punham numa categoria mais elevada, em que a competição era mais rigorosa. No entanto, na época eu trabalhava com meu pai, polindo assoalhos. O trabalho era muito cansativo e me impedia de dedicar o tempo que eu queria ao ciclismo. Portanto, quando eu alcançava o número de pontos requeridos para permanecer na minha categoria, satisfazia-me com os prêmios em dinheiro que recebia nas corridas restantes, mas permitia que outros vencessem para não subir de categoria.

Progresso rápido

Em vista dos meus resultados, três equipes me ofereceram contratos de corrida. Rejeitei-os para não abandonar meu pai. No entanto, o treinador mais insistente persuadiu meu pai a dar-me uma semana de licença para competir numa difícil corrida na cadeia de montanhas dos Pireneus ao longo da fronteira franco-espanhola. Obtive boa classificação, de modo que prosseguimos na Espanha, onde venci a Volta da Catalunha, de amadores. Alguns dias depois, competi na Volta das Ilhas Baleares, venci a primeira etapa, e vesti a camiseta de malha do líder, mas a perdi no último dia numa prova contra relógio porque minha equipe desistiu.

Daí veio a Route de France, na região de Nice. Brilhei em muitas das etapas e ganhei o troféu de melhor em colina. Devido a esses bons resultados, fui escolhido como um dos dez melhores ciclistas e convidado para representar a França na Tour de l’Avenir, a versão amadora da Volta da França.

Naqueles dois meses, as únicas notícias que minha família recebia vinham da seção de esportes dos jornais. Pensando no meu pai e em que ele me dera apenas uma semana de licença, rejeitei a oferta e voltei para casa. Mas meu treinador e um jornalista esportivo convenceram meu pai de que eu era uma das esperanças da França no ciclismo, de modo que ele me deixou ir. Achei que estava sonhando! Apenas alguns meses antes, eu era um amador de terceira ou quarta categoria, e agora fora escolhido para a mais importante corrida de bicicletas de amadores do mundo! Como mencionei no início do artigo, uma queda arruinou minhas chances naquela corrida de 1966.

Em 1967, venci umas dez competições, competi na corrida Paris-Nice e fui o quarto colocado na Volta de Morbihan, na Bretanha. Em 1968, aos 24 anos, assinei meu primeiro contrato profissional, juntando-me à equipe do ciclista holandês Jan Janssen. Competimos na Volta da França, e Jan foi o campeão naquele ano. Nesse ínterim, depois duma prova contra relógio em Rennes, na Bretanha, conheci Danielle, que comparecera para assistir pela primeira vez a uma corrida de bicicletas. Não havia de ser a última vez, pois nos casamos no ano seguinte.

Como eu gostava daquela época — o espírito de equipe, a vida nômade, ver cidades e paisagens diferentes todo dia! Eu não ganhava muito dinheiro, mas isso não importava, porque o prazer de correr era bastante satisfatório. Saía-me bem em várias provas e esperava vencer uma das grandes corridas. Entretanto, comecei a dar-me conta de que um enorme abismo separa ciclistas amadores de ciclistas profissionais.
Os grandes campeões . . . e os demais

Na temporada de corridas de 1969, formei uma equipe com o famoso ciclista francês Raymond Poulidor. Corri nos grandes clássicos de um dia: Paris-Roubaix e Flèche Wallonne, na Bélgica. Eu acompanhava o ritmo dos melhores ciclistas nos desfiladeiros de montanha, chegando em posição razoavelmente boa em várias etapas. No entanto, mais do que qualquer outra coisa, eu gostava de vencer as competições locais na Bretanha diante das multidões de espectadores que eu amava.

Mas, contrário às minhas expectativas, como muitos outros eu não era dotado das capacidades físicas de um grande campeão. Numa rigorosa etapa da Volta da Espanha, tive de desistir por causa de neve e chuva. Ali me dei conta de que os grandes campeões têm esse quê a mais, aquele algo especial que os habilita a suportar tanto o calor abrasador como o frio congelante. Eu não era da mesma categoria de Eddy Merckx, por exemplo, o campeão belga que dominava o ciclismo na época. Ele superava inequivocamente os demais de nós. De fato, a bem dizer eu só via suas costas nas corridas em que ele participava.

Solidariedade entre os corredores

Existia solidariedade mesmo entre equipes competidoras. Vi isso pessoalmente numa das mais difíceis etapas da Volta da França, em 1969. Na noite anterior, havíamos chegado exaustos ao hotel depois duma série de rigorosas etapas em montanhas. O despertador tocou às sete horas na manhã seguinte. Como de costume, um café da manhã reforçado nos esperava três horas antes da corrida.

No começo havia uns 150 de nós, cada um relatando seus altos e baixos dos últimos dias, embora tomando o cuidado de não revelar estratégias da equipe para a corrida à frente. Seria um dia estafante. Essa etapa ia de Chamonix, no sopé do monte Branco, até Briançon, com 220 quilômetros de estradas alpinas e três grandes desfiladeiros para cruzar.

Logo desde o começo, o ritmo era muito acelerado. Ao subir os 1.984 metros do desfiladeiro de Madeleine, percebi que não seria um dia bom para mim. Chovia, e a chuva ia virando neve à medida que ganhávamos altitude. No pico, seis de nós de equipes diferentes já estávamos vários minutos atrás dos líderes. Congelados, começamos a descida, com os dedos tão rígidos que mal conseguíamos frear sem colocar o pé no chão. Já lá embaixo, uma autoridade indicou, de dentro do carro, que o nosso atraso sem dúvida nos eliminaria da corrida. Fiquei totalmente desalentado ao pensar em ver minha Volta da França terminar num lugar que eu amava muito, as montanhas.

Embora nossos esforços parecessem fadados ao fracasso, o ciclista mais experiente entre nós incentivou-nos a não desistir. Ele nos animou, reestruturou o grupo e sugeriu que nos revezássemos na frente do grupo. Perseveramos. O posto de suprimentos já estava fechado ao chegarmos lá, mas não nos importamos em partilhar o pouco que ainda tínhamos para comer.

No vale, o clima quente nos deu forças renovadas. As horas passavam, e à nossa frente havia os dois outros grandes obstáculos do dia: os desfiladeiros de Telegraph e de Galibier, de 1.670 e 2.645 metros respectivamente. Na subida aguardava-nos uma surpresa maravilhosa. Numa curva na estrada, por entre os espectadores, conseguimos enxergar vultos multicoloridos. Sim, havíamos alcançado os outros. Passamos por alguns que haviam desistido e outros que pareciam imobilizados. Vi uma das esperanças jovens da Bélgica andando, empurrando exausto a bicicleta. Alcancei o líder da minha equipe e concluí a etapa em posição razoavelmente boa.

Tudo isso me ensinou uma importante lição que nunca esqueci: enquanto a linha de chegada não é cruzada, a corrida não está nem perdida nem vencida. Além disso, nunca esquecerei o espírito de apoio mútuo que existia, mesmo entre equipes competidoras.

Primeiros contatos com a Bíblia

Em 1972 tive o primeiro contato com a mensagem da Bíblia. Um ciclista chamado Guy, que recentemente havia deixado a corrida profissional, fez-me uma visita e falou sobre sua nova fé. Eu lhe disse que não estava interessado e que todos crêem que sua própria religião é a melhor. Guy mostrou-me alguns versículos bíblicos e respondeu às minhas objeções dizendo que, já que muitas religiões dizem que suas crenças procedem da Bíblia, seria fácil pôr à prova suas crenças à luz da verdade da Palavra de Deus.
Eu já havia ouvido falar da Bíblia, mas, como católico não praticante, não achava que ela tinha algo a ver com a minha religião. Mesmo assim, achei que a nossa conversa fora bem oportuna, porque um parente da minha esposa, um missionário católico, viria nos visitar, de modo que poderíamos considerar tudo isso com ele.

O parente da minha esposa confirmou que a Bíblia era realmente a Palavra de Deus. No entanto, ele nos recomendou cautela, porque, segundo ele, as Testemunhas de Jeová eram ótimas pessoas, mas desencaminhavam os outros. Ao encontrar Guy de novo, perguntei-lhe sobre isso. Ele explicou que, contrário ao que eu aprendera na igreja, a doutrina da imortalidade da alma humana não é bíblica. (Ezequiel 18:4) Perguntou-me também por que o parente da minha esposa não usava o nome de Deus, Jeová. — Salmo 83:18.

Fiquei pasmo ao saber que Deus tem um nome. Quando mostramos esses versículos ao parente da minha esposa, ele disse que a Bíblia não devia ser encarada de modo tão literal. Nossas palestras com Guy não foram além disso, e Guy retornou a Paris, onde trabalhava.

Guy voltou à Bretanha um ano depois e nos visitou. Recomeçou nossas palestras mostrando-nos que a Bíblia também é um livro profético. Isso nos incentivou a estudá-la mais atentamente. Nossas palestras passaram a ser mais regulares. No entanto, Guy teve de ser muito paciente comigo, visto que minha vida ainda girava em torno do ciclismo e tudo que se relacionava com isso: amigos, patrocinadores, e assim por diante. Além disso, por sermos da Bretanha, região profundamente ligada a tradições religiosas, nossas famílias se opunham ao nosso novo interesse na Bíblia.

Em 1974, minha carreira nas corridas terminou abruptamente com um acidente de trânsito. Isso nos fez pensar no que era realmente importante em nossa vida. Minha esposa e eu decidimos mudar-nos da nossa cidade natal e afastar-nos da influência das nossas famílias. Nesse ponto começamos a assistir às reuniões regularmente no Salão do Reino da Congregação Dinan. Progredimos na verdade e fomos batizados em 1976.

Desde então tenho tido a oportunidade de falar sobre a Bíblia a vários ciclistas da minha geração. Também, quando trabalho de casa em casa muitas pessoas me reconhecem e gostam de falar sobre minha carreira no ciclismo. No entanto, alguns não são tão entusiásticos quando falo da mensagem do Reino.

Hoje, quando sinto necessidade dum bom exercício físico, ando de bicicleta com minha família. Nesses momentos, reconheço a veracidade das palavras de Paulo: “O treinamento corporal é proveitoso para pouca coisa, mas a devoção piedosa é proveitosa para todas as coisas, visto que tem a promessa da vida agora e daquela que há de vir.” (1 Timóteo 4:8) — Conforme narrado por Jean Vidament.

A Volta da França

  A mais famosa prova ciclística de estrada do mundo, a Volta da França, teve início em 1903. Abrange de 4.000 a 4.800 quilômetros e leva umas três semanas, agora terminando em Paris. Cerca de 200 competidores profissionais participam nessa corrida, que passa pela zona rural da França com algumas incursões em países vizinhos. Multidões de espectadores ao longo do caminho incentivam os corredores.

  Todo dia, o ciclista com o menor tempo total veste a camiseta amarela de malha. O líder global no último dia é o campeão.

  Algumas das etapas mais curtas são provas contra relógio, em que os ciclistas, individualmente ou em equipe, correm contra o tempo. Na modalidade de prova contra relógio em equipe, um número definido de ciclistas da mesma equipe tem de terminar a etapa como grupo, todos ao mesmo tempo.


Algo melhor do que “ondas perfeitas”

NARRADA POR KARL HEINZ SCHWOERER

Nasci em 1952 em Pittsburgh, Pensilvânia, EUA, mas cresci em New Smyrna Beach, Flórida. Na adolescência, desenvolvi uma grande paixão pelo surfe. Na verdade, o surfe se tornou a coisa mais importante na minha vida.

EM 1970, entrei na Universidade de Aeronáutica Embry-Riddle, em Daytona Beach, Flórida, com o objetivo de me tornar piloto comercial. No entanto, passei a ficar cada vez mais decepcionado com o governo, que na época travava o que, para mim, era uma guerra injusta no Vietnã. Indignado com o inteiro sistema, assim como estavam outros jovens na época, abandonei os estudos e adotei um estilo de vida hippie. Tinha o cabelo comprido e usava drogas.

Pouco depois conheci Susan, uma jovem aventureira com grande talento para pintura e fotografia. Calculei que, se levássemos uma vida simples, daria para eu trabalhar com construção de seis a oito meses na Flórida, e passar o resto do ano acampando com Susan em praias do México e da América Central, na costa do Pacífico.

Percebi a necessidade espiritual

Levar uma vida despreocupada em lindas praias tropicais — com Sue pintando e tirando fotos e eu surfando — era realmente muito agradável. Mas, após alguns anos, percebemos que nossa vida não estava completa. Parecia que faltava alguma coisa. Assim, em meados de 1975, enquanto vivíamos no litoral do Pacífico, na Costa Rica, comecei a buscar esclarecimento espiritual. Passei a ler livros sobre filosofias e religiões orientais, populares naquela época.

Visto que os livros que li muitas vezes citavam a Bíblia para provar que seus ensinamentos eram verdadeiros, cheguei à conclusão de que ela devia ser a base para a verdade. Então troquei alguns cogumelos alucinógenos por um exemplar antigo da Bíblia King James Version (Versão Rei Jaime). Toda tarde, depois de surfar a manhã inteira, eu sentava e lia a Bíblia. Apesar do meu grande entusiasmo por esse livro, meu entendimento dele era limitado.

“Você tem perguntas sobre a Bíblia?”

Na viagem da Costa Rica para os Estados Unidos, em agosto de 1975, Sue e eu paramos numa farmácia em El Salvador para comprar remédio. Como estávamos com dificuldade para nos comunicar com o farmacêutico, uma cliente chamada Jenny se ofereceu para ajudar. Ela era uma americana de 16 anos que falava espanhol fluentemente. Jenny explicou que ela e seus pais eram Testemunhas de Jeová e que haviam se mudado para El Salvador a fim de ensinar as pessoas sobre a Bíblia.

Jenny falou: “Você tem perguntas sobre a Bíblia?”

“Sim, tenho!”, respondi. Apesar de nossa aparência hippie, Jenny nos convidou imediatamente à sua casa para conhecer seus pais, Joe e Nancy Trembley. Aceitamos o convite. Passamos a tarde inteira fazendo perguntas sobre a Bíblia e ficamos muito impressionados com o modo em que Joe e Nancy as responderam. Eles sempre diziam: “Veja esse versículo na sua Bíblia.”

Como estava ficando tarde, eles nos convidaram para passar a noite em sua casa. Mas não permitiram que Sue e eu dormíssemos no mesmo quarto, pois não éramos casados. Durante a noite, Sue e Jenny ficaram horas acordadas considerando muitos assuntos bíblicos — desde Adão até o Armagedom.

A Bíblia verde

No dia seguinte, antes de deixarmos a cidade, Joe e Nancy nos deram vários exemplares de A Sentinela e Despertai!, alguns livros e uma Bíblia. Era a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, na época produzida com capa verde. Joe também nos levou para ver o Salão do Reino, um local simples e modesto onde as Testemunhas de Jeová se reúnem para estudar a Bíblia. Pensei: ‘Que diferença das ostentosas igrejas da cristandade onde as pessoas aprendem tão pouco sobre a Bíblia!’

Mais tarde naquele mesmo dia, quando paramos num posto de fiscalização antes de cruzar a fronteira com a Guatemala, a Bíblia verde causou confusão entre os funcionários. Eles ficaram intrigados porque sabiam que as Testemunhas de Jeová costumavam usar uma Bíblia como aquela. Mas nós definitivamente não parecíamos Testemunhas de Jeová. Apesar de nossa aparência, fomos liberados depois de alguns minutos. Isso nos deixou perplexos porque normalmente eles revistavam nosso carro e nossos pertences em busca de drogas ou contrabando. De modo que começamos a encarar a Bíblia verde como um amuleto, ou talismã.

À medida que líamos a Bíblia e as publicações bíblicas, nos convencíamos de que havíamos encontrado a verdade sobre Deus. Dirigindo pelo México, eu não via a hora de passar duas semanas surfando em Puerto Escondido — meu lugar favorito para o surfe. Após aproveitar aquelas “ondas perfeitas”, eu estava decidido a voltar para a Flórida e me tornar um servo de Jeová.

Passei essas duas semanas surfando de manhã e lendo a Bíblia e publicações bíblicas na praia à tarde. A Bíblia verde atraiu a atenção de uma menina de 8 anos, que insistiu em nos levar a um certo lugar à noite. Não conseguíamos entender aonde ela queria que fôssemos, mas percebemos que tinha a ver com a Bíblia verde. Recusávamos, mas ela ficava insistindo. Por fim, após alguns dias, decidimos acompanhá-la. Ela nos levou ao Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, uma pequena construção de bambu com telhado de sapé. Todos nos cumprimentaram com abraços e apertos de mão como se fôssemos velhos amigos.
Ficamos impressionados com o comportamento respeitoso de todos na assistência. Algumas crianças não paravam de nos olhar, provavelmente porque nunca tinham visto pessoas com cabelo loiro tão comprido. Seus pais tinham de pedir várias vezes para que elas prestassem atenção na reunião. No entanto, Jeová havia usado um desses pequeninos para que assistíssemos à nossa primeira reunião.

Determinados a servir a Jeová

Após duas semanas de ondas perfeitas, vendi minhas pranchas e dirigimos direto para a Flórida. Lá começamos a estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová e a freqüentar todas as reuniões congregacionais. Determinados a servir a Jeová, deixamos de viver juntos e de ter associação achegada com nossos anteriores amigos. Tirei a barba, cortei o cabelo, e Sue comprou alguns vestidos. Casamos quatro meses depois, e em abril de 1976 fomos batizados em símbolo de nossa dedicação para servir a Deus.

Agora nossa vida tinha um objetivo. Gratos a Jeová por tantas bênçãos, estávamos ansiosos de retornar a um país de língua espanhola para pregar as boas novas sobre o Reino de Deus. Mas os anciãos da nossa congregação nos aconselharam: “Não vão agora. Primeiro edifiquem sua espiritualidade para depois terem o que oferecer lá.” Aceitamos o conselho e depois disso estabelecemos o alvo de ser pioneiros, como as Testemunhas de Jeová chamam seus ministros de tempo integral.

Sue tornou-se pioneira em janeiro de 1978. Eu também queria ser pioneiro, mas ainda devia muito dinheiro à universidade. Pensei numa solução simples: declarar falência e ficar livre para ser pioneiro.

Os anciãos, porém, sabiamente me aconselharam a não fazer isso, pois não estaria de acordo com os princípios bíblicos, como o de sermos ‘honestos em todas as coisas’. (Hebreus 13:18) De modo que continuei a trabalhar para pagar minhas dívidas. Por fim, em setembro de 1979, alcancei o alvo de participar com Sue no serviço de pioneiro. Depois disso, por levarmos uma vida simples, eu só precisava trabalhar dois dias por semana para nos sustentar.

O serviço no Betel de Brooklyn

Em abril de 1980, depois de menos de um ano como pioneiros juntos, tivemos uma grande surpresa. Algum tempo antes, em resposta a uma convocação de trabalhadores de construção, havíamos enviado petições para servir no Betel de Brooklyn, Nova York, sede mundial das Testemunhas de Jeová. E agora estávamos recebendo um convite para nos apresentar em 30 dias! Ficamos felizes e tristes ao mesmo tempo porque gostávamos muito de nosso serviço de pioneiro. Sem saber o que fazer, conversamos sobre isso com dois anciãos, que nos ajudaram a ver o grande privilégio que nos estava sendo oferecido. Eles recomendaram: “Vão e experimentem o serviço de Betel por um ano.” Vendemos tudo que tínhamos e fomos para Brooklyn.

Depois de dois anos na construção, fui convidado para trabalhar no Escritório de Engenharia da Construção, onde recebi treinamento em projeto de estrutura. Sue trabalhou um ano na Encadernação e depois foi convidada para trabalhar na Reprografia. Todos os anos, no nosso aniversário de casamento, refletíamos sobre o ano anterior, avaliávamos nossos desejos e circunstâncias e decidíamos continuar servindo em Betel.

Com o passar dos anos, fizemos amizades achegadas e maravilhosas. Além disso, já que Betel nos permitia servir a Jeová e à nossa fraternidade mundial de uma maneira muito significativa, resolvemos ficar. Em 1989 começamos a estudar espanhol, o que possibilitou sermos designados para uma congregação de língua espanhola em Brooklyn. Assim, em nossa opinião, tínhamos o melhor de dois mundos — servir em Betel e ao mesmo tempo numa congregação de língua estrangeira.

Certa vez, Jenny, já mencionada, nos visitou no Betel de Brooklyn e foi interessante ouvir seu lado da história sobre o dia em que nos conhecemos em El Salvador. Ela estava dando um estudo bíblico quando começou a passar mal. No caminho para casa, decidiu comprar remédio. Por algum motivo ela não foi à farmácia que costumava ir, mas foi àquela em que estávamos.

O serviço em outros países

Um dia, em 1999, meu encarregado em Betel me surpreendeu com a pergunta: “Estaria disposto a ir ao Betel da Austrália por três meses para trabalhar em um projeto no Escritório Regional de Engenharia?”
“Sim”, respondi sem hesitar. Logo estávamos a caminho da Austrália, onde servimos por três anos. Foi um prazer ajudar no projeto de construção de sedes em vários países do Oriente e do Pacífico Sul. Quando voltamos a Brooklyn em 2003, mais uma surpresa nos aguardava. Fomos convidados para outra designação no exterior — servir no Escritório Regional de Salões do Reino na sede do Brasil, a certa distância da grande cidade de São Paulo.

Esse é o lugar em que estamos até hoje. O escritório supervisiona a construção de Salões do Reino na maioria dos países da América do Sul. Minha designação inclui viajar para ajudar nessas construções e para encorajar os irmãos que trabalham nos vários projetos — e Sue me acompanha.

Manter nossas prioridades

Devo admitir que ainda gosto de surfar, mas encontrei algo melhor do que “ondas perfeitas”. Assim, mantenho o surfe no seu devido lugar, como uma forma de diversão. Com o apoio amoroso de Sue, tenho me concentrado em algo mais importante: servir ao nosso amoroso Deus, Jeová.

Nossa maior preocupação agora é usar a vida e nossas habilidades para promover os interesses do Reino e a adoração pura. Aprendemos que o mais importante não é onde estamos servindo a Jeová, mas que o sirvamos de todo o coração, onde quer que estejamos. — Colossenses 3:23.